O encerramento da tríade acerca do centenário da Revolução de 1923, abordaremos a compreensão das degolas, estupros, roubos e demais tipos de violência sob a urgência da “reafirmação dos vínculos éticos e estéticos do ensino de História com os passados sensíveis e com a compreensão do presente como objeto de estudo e de intervenção da História” (Pereira, 2017, p. 01).
Trago a reflexão de Arendt “Em nenhum outro lugar fica mais evidente o fator autodestrutivo da vitória da violência sobre o poder do que no uso do terror para manter a dominação, sobre cujos estranhos sucessos e falhas eventuais sabemos talvez mais do que qualquer geração anterior. O terror não é o mesmo que a violência; ele é, antes, a forma de governo que advém quando a violência, tendo destruído todo o poder, em vez de abdicar, permanece com controle total”. Para sistematizar os impactos da Revolução de 1923, como fora explorado pelo prof. Enori Chiaparini na Jornada Acadêmica O centenário da Revolução de 1923 e o Combate de Erebango.
As tropas adentravam as propriedades e requisitavam tudo que lhes era necessário e não se importavam com o que isso acarretaria na rotina e na subsistência das famílias. Quando muito, deixavam uma espécie de nota promissória para que os atingidos buscassem seus direitos na prefeitura municipal quando a Revolução terminasse.
No ano de 2013, realizei no Arquivo Histórico palestras no mês de abril sobre a Revolução de 1923, encerrando-as com a música “Os Silêncios das Janelas do Povoado” de Luis Marenco lançada dez anos antes. Destaco duas estrofes:
Era um fim de dia quieto
Pra quem quisesse ouvi-lo
Apesar do céu sangrando
Alguns mateavam tranquilos
Foi quando cascos nas pedras
E constâncias de esporas
Quebraram o calmo das casas
Chamando olhares pra fora
[...]
Primeiro um rangido fraco
Depois um grito prendido
E a intenção da adaga
Tinha mostrado sentido
E os quatro em seus silêncios
Voltaram no mesmo tranco
Deixando junto a soleira
Vermelho um lenço branco
Ou seja, o medo acompanhava os grupos sociais, independentemente da cor do lenço, a práxis era a mesma, usar os recursos das propriedades, arregimentar homens e deixar as tropas inimigas sem a oportunidade de executar isso. Os traumas da geração que passou por isso ficaram impressos em seus modos de vida, e foram tratados apenas com silêncio.
Referências
ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Civilização Brasileira, 2022.
PEREIRA, Nilton Mullet. Ensino de História, dever de memória e os temas sensíveis. Anais do Seminário de Educação, Conhecimento e Processos Educativos, v. 2, 2017.