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Opinião

Uma casa velha no meio da quadra

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Foi uma grande honra ter sido a última criança a frequentar aquela casa e o último aluno que recebeu
Por Lucas Cidade Garcez - Bacharel em Relações Internacionais e Administração Pública e Servidor Público
Foto Arquivo pessoal

Era 1997, lembro bem do dia, minha mãe veio me buscar na escolinha ao fim da tarde e contar que meu avô Anacleto havia falecido. Choveu forte, um temporal, durante toda aquela noite na Ilha de Santa Catarina, muito parecida com a chuva entre quinta (16) e sexta (17) da última semana.  Memória marcante para um menino com menos de quatro anos à época.

Marcante como foram os momentos na Av. Presidente Vargas apesar de tão pouco tempo. Vivi ali meus primeiros dias de vida logo depois que nasci até meu batizado. Gosto de brincar que sou catarinense no civil e gaúcho no religioso por ter dado o primeiro choro no centro florianopolitano e ter também chorado ao receber a água benta do batismo na Paróquia São Pedro no centro erechinense.

Mas foi ali na Presidente Vargas na vizinhança da Catedral e da Prefeitura que estabeleci meu elo com essa terra. Ali fiz churrasco com o vô, entrei pra brincar nas panelas gigantes da vó, tive meus primeiros natais, testei as lâmpadas coloridas que me chamavam a atenção no Sonda, comi pipoca só de cueca na varanda aprendendo o que era chimarrão, ganhei uma camisa branca com listra vermelha e conheci o que era ser colorado, fiz recortes para colar na porta recebendo a tia Cleusa quando vinha de Passo Fundo e tive meu vínculo eternizado pelo carinho da minha madrinha Neusa que registrou muitas das minhas visitas a ela pela redondeza onde se repetem os Lucas no cimento da calçada .

Quis a história que na velha escola eu tivesse também algumas das minhas primeiras lições de escrita, com meu quadro e giz coloridos, e de biologia, conhecendo não só a mordida da Paloma, mas os cupins. Pois bem, entre aquela noite chuvosa de 97, quando a casa perdeu seu habitante mais cuidadoso- artesão, fabricante de tantos móveis daquela residência- e o temporal de sexta se passaram vinte e seis anos e alguns meses. A natureza fez minha avó e minha madrinha abandonarem o aluguel e buscarem nova moradia. Nunca mais a casa teve qualquer habitante que não fosse a sociedade isoptera consumidora da madeira.

Fosse essa uma história individual talvez a lamentação e o texto pudessem aqui se encerrar, mas minhas lembranças da infância são muito menores do que a importância coletiva que a queda ocorrida na sexta pela manhã da casa da Presidente Vargas,112 representa, ou ao menos deveria representar. A capital da amizade que tanto se orgulha da imigração recebeu de um italiano de Mântua sua primeira escola em 1917. Se Mantovani tinha que percorrer dez quilômetros para frequentar a escola, as primeiras crianças erechinenses puderam ter um local de ensino bem ao centro da localidade tornada município no ano seguinte. Mais velha que o hoje centenário São José, foi o pequeno edifício o embrião para o Medianeira, o JB, o Barão, a URI e toda a rede estadual e municipal que hoje se espalha pelo município. Mas mesmo com toda essa importância histórica por vinte e seis anos esse imóvel padeceu junto ao desdém tendo sua importância lembrada por pouquíssimas vozes entre as quais não a da madrinha, mas a da pesquisadora Neusa com livro e tantos artigos e outros textos publicados.

A queda de uma casa histórica é a materialização concreta de um comportamento. Ninguém nasce sabendo a diferença entre Maquiavel e Saint-Exupéry, do pequeno e do príncipe. É sempre válido o aprendizado diário independentemente da idade. Ninguém deveria ser humilhado por não saber. Revoltante mesmo são manifestações arrogantes com a alegação de que história e cultura são secundárias. Exemplifico com fatos da minha cidade natal, recentes e presenciados ou relatados a mim. Venho de uma cidade que por trinta e oito anos (de 1981 a 2019) conviveu com seu principal cartão postal fechado. Foi por muitos anos a Ponte Hercílio Luz objeto de comentários como "Por que não demolir ela e construir uma nova mais moderna?”. Como se ali não estivesse um modelo de estrutura original, referência internacional para a engenharia, como se o desenvolvimento da capital do estado não fosse atrelado à necessidade de conexão com o restante do território.

Nessa semana assisti em uma rede social a importância de um clássico da literatura nacional ser imputada tão somente ao fato que a mesma obra sempre é cobrada nas provas de ingresso da universidade. Um amigo, no mesmo período, ouviu do seu grupo que a história de Santa Catarina era conhecimento irrelevante, que não precisava ser estudada. Ainda em 2023 presenciei em um grupo de conversa, uma colega de voluntariado ter sua formação em Filosofia após uma bela exposição sobre o empirismo de Hume considerada inútil. Por fim, durante um evento privado em junho aqui em Erechim assistimos todos os presentes a uma manifestação sobre a má escolha da nossa praça central como local para a foto oficial por ser um local feio. Diante dessas manifestações cabem os questionamentos:  A importância de autores como Manuel Antônio de Almeida e Lima Barreto reside na cobrança para o vestibular ou porque os mesmos retratam as condições sociais do Brasil no início e fim do século XIX, muitas das quais ainda persistem, como a pobreza e a violência com grupos sociais?

Existiria a Erechim que conhecemos assim como todo o meio oeste catarinense sem o interesse estrangeiro que resultou na ferrovia? Ou ter a possibilidade de ir a Marcelino e Piratuba passear é mera obra do acaso? Nossa cidade teria as suas características não fosse a influência positivista de Augusto Comte sobre Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros e Torres Gonçalves ? A arquitetura da nossa praça não faz parte da nossa identidade ao ponto de ser desprezada ? O cotidiano e a imagem de Paris e Belo Horizonte, nossas inspiradoras, seria o mesmo sem o Campo de Marte ou a Praça da Liberdade ?

A falta de manutenção do monumento também faz indagar sobre quando, quanto e pelo que nos mobilizamos. A mesma ponte pênsil antes desvalorizada hoje recebe todos os finais de semana milhares de turistas e moradores locais que inundam as redes com postagens. O mesmo ocorreu com o mercado público de Florianópolis após a reforma realizada por ocasião de incêndio na década de 2000. No Rio Grande do Sul tive a oportunidade de visitar Caxias do Sul, Nova Petrópolis e Ivoti, modelos de conciliação do passado colonial italiano e germânico com o turismo em parques e outros espaços culturais. Assim, são perfeitamente válidos anúncios de corretagem de apartamentos na Meia Praia ou em Camboriú. É nobre e justo querer almejar uma vista da praia em uma torre alta e espelhada. Mas é incômodo vê-los ao lado de uma estação ferroviária se deteriorando como ali no viaduto, enquanto os terminais de Estação e Erebango estão conservados. Uma nova loja de sapatos é boa para a cidade mas foi igualmente desagradável ver tanta mobilização e barulho com influencers e etc enquanto o prédio dos Correios na Salgado Filho agoniza desde os anos 1990.

Erechim poderia ter seguido o exemplo de suas vizinhas gaúchas. Em 2022 a estudante da UFFS, Natália Lindner, em conjunto com sua orientadora, publicou projeto e artigo sobre a sede da nova biblioteca municipal no intervalo de terreno entre a antiga escolinha e a moradia do professor em frente a Câmara Municipal. Isso reafirma que boas ideias ao local sempre existiram, mas que para qualquer projeto do tipo é necessário engajamento coletivo. Não existe política pública viável sem mobilização daqueles que têm a capacidade de articular, influenciar a sociedade, defender um caminho e isso não se restringe ao político. Vivemos a época em que qualquer tópico de discussão ganha grande e rápida discussão por meio das redes. Por que não usarmos os recursos para debater o patrimônio coletivo ?  Se a administração prioriza aquilo que é urgente e obrigatório: educação básica, saúde , transporte coletivo, ela também está atenta aos anseios do pensamento comunitário.  O problema ocorre no silêncio deste que se perpetua até que algo mais grave ocorra. Estive desde sexta muitas vezes no local da velha escola, vi muitas pessoas parando e olhando um local antes quase ignorado.

Foi uma grande honra ter sido a última criança a frequentar aquela casa e o último aluno que recebeu tantas lições de carinho, amor e educação na velha escola. Espero que possa de algum modo ser salva qualquer parte da casa , mas principalmente que nosso patrimônio restante ganhe mais atenção de todos nós. Que possamos agir, usar todos os recursos humanos e digitais disponíveis, discutir, propor, fazer acontecer, que se recupere o Castelinho, o prédio dos Correios, a Estação, que todo dia seja um dia de viver a cidade com sua história e cultura.

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