Ao longo de diversas colunas transitamos pela ideia de lugares de memória, sob a concepção de que eles são “um meio-termo entre memória coletiva e História, o tempo presente corresponde a esse meio-termo também entre passado e presente ou o trabalho do passado no presente. O tempo presente não seria então um simples período adicional destacado da história contemporânea, uma nova concepção da operação historiográfica” (Dosse, 2017, p.17).
Evoco ainda a perspectiva de que eles são “a justaposição de duas ordens de realidades: uma realidade tangível e apreensível, às vezes material, às vezes menos, inscrita no espaço, no tempo, na linguagem, na tradição, e uma realidade puramente simbólica, portadora de uma história. A noção é feita para englobar ao mesmo tempo os objetos físicos e os objetos simbólicos, com base em que eles tenham ‘qualquer coisa’ em comum. [...] Lugar de memória, então: toda unidade significativa, de ordem material ou ideal, que a vontade dos homens ou o trabalho do tempo converteu em elemento simbólico do patrimônio memorial de uma comunidade qualquer (Nora, 1997, 2226).
A principal reflexão que tenhamos que trazer à baila, dá título para esta coluna, “existe espaço para os espaços de memória? ”
Isto é relativo. E como diz José D’Assunção Barros, “um ceticismo por vezes paralisante, ou um cinismo pragmático, podem, por exemplo, encontrar boa acolhida em um universo relativístico”.
Pensar acerca dos espaços de memória e tudo aquilo que representam, depende do olhar de quem vê. O deus Mercado (não falo do zagueiro do Inter), enxerga formas de monetizar, capitalizar, espoliar. A comunidade que se sociou no espaço tem o enfoque nas memórias afetivas. Os historiadores e demais pesquisadores historicizam e analisam as relações sociais desenvolvidas no espaço e no tempo.
Quando o espaço é público, se, se faz algo, está deixando de alocar verbas para “coisas importantes”, se não faz, é irresponsável. Nos espaços que não são públicos, exige-se a atuação do público. Estamos correndo atrás do próprio rabo.
Políticas públicas são sempre bem-vindas, mas, nunca serão suficientes, porque egoísta é quem não pensa em mim.
Mas afinal, existe espaço para os espaços de memória?
É relativo.
Referência
BARROS, José D’Assunção. Verdade e História, 2022.
DOSSE, F. História do Tempo Presente e Historiografia, in: LAPUENTE, R. S.; GANSTER, R.; ORBEN, T. A. (Orgs.), Diálogos do tempo presente: historiografia e história. / Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2017.
NORA, P. Lugares de memória (Les lieux de mémoire), Paris: Quarto Gallimard, 1997