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Opinião

Obituário de um patrimônio

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Neusa Garcez
Por Neusa Cidade Garcez - Historiógrafa, Mestre em História Ibero Americana - URI Membro da Academia Erechinense de Letras.

Carlos nasceu em 20 de maio de 1869, no povoadinho de Corte Motta, Itália. Como outras milhares de famílias, a sua também emigrou fugindo das dificuldades. Era março de 1885, quando embarcou com sua família rumo ao Brasil, e logo ao Rio Grande do Sul, onde viveu e trabalhou em várias localidades.

O jovem muito estudou e no ano de 1897 foi nomeado professor. Havia então notícias transmitidas de “boca em boca” sobre as férteis terras, boas aguadas, e muita madeira no  alto dos desabitados peraus onde já havia a Colônia Erechim. Fez sua primeira viagem em 1912 onde analisou a localidade. Fez outras viagens. Nos Registros da Prefeitura Municipal, pode-se ler no dia 21 de julho de 1914 a compra do lote nº1, com 1137,50 m na avenida Benjamin Constant (Presidente Vargas, hoje). O comprador, Carlos Mantovani que em 1916 mandou construir uma casa.

Carlos, a esposa Natalita e o filho adotivo, Modesto, radicaram-se na casa em 1917. Em junho do mesmo ano, Carlos, com 28 anos, abriu a primeira Aula Pública de Erechim onde iniciou sua histórica e  abençoada missão de educar, orientar e incutir valores aos alunos, mesmo que precisasse usar a palmatória.

Nova residência foi construída para a família de Carlos. O tempo passou, outras famílias residiram na casa escola, a última de Anacleto Cidade Garcez há deixou em 1997. A partir de então a casa ficou desabitada.

O Patrimônio de incalculável valor, sofreu, ao longo do tempo, com ausências de  amor e respeito ao já vivido e ao construído por valentes antepassados, e toda sorte de problemas que impediram sua justa e correta valorização, restauração e conservação, além de variados entraves jurídicos, levando a cansada e solitária casa a desabar com a força dos temporais.  

Lastimamos sempre não termos construído uma pequena vila, onde fossem realocadas algumas  unidades arquitetônicas da época da colonização. Fato que daria excelência à região, que até algum tempo se considerava, orgulhosamente, o fruto vitorioso de uma colonização onde não houvera “guetos raciais” mas sim, um caldeamento bonito e progressista de inúmeros grupos humanos.

A solidão da casa Primeira Escola, e o desamor de muitos, a levaram a uma queda definitiva, acompanhada por muitas lágrimas de desconsolo e de revolta, dos que viam nela um “Marco do Colonizador”.

Há aqueles que vociferam e afirmam que a construção centenária era algo inútil e que tornava a Av. Pres. Vargas, muito feia.

Eu afirmo: A velha e histórica casa dignificava e aumentava  o valor turístico da rua. Feia é falta de cultura! Utilizo-me de parágrafos colocados no meu livro, trabalho final do meu curso de Arqueologia, feito com os auspícios da URI, intitulado “Marcos do Colonizador: O Castelinho e a Casa” Edifapes, 2008:

“Devemos saber que um trecho de muro, um banco escolar, um tapete, um guarda-chuva são ricos de idéias ou sentimentos, quando nós também o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as coisas, compõem um dos mais interessantes fenômenos da terra.” (Orser, 1992, p. 9).

Albano Wolkmer colaborou com a elaboração do livro ao me conceder entrevistas gravadas em três ocasiões. Na concepção de Wolkmer, conhecer o Patrimônio, divulgá-lo, esclarecer sobre a arquitetura e os profissionais que nele trabalharam, contribui para o desenvolvimento cultural, estimulam o estudo da história do município e da Região. A valorização do Patrimônio Histórico e Cultural, amplia o grau de conscientização e atraíram para o Município o interesse das comunidades regional, estadual e nacional. Maríndia Girardello, escreveu antes de falecer, “A história não é só o que está escrito nos livros, e só acontecimentos do passado, mas é o produto da atividade do homem expressa nas suas moradias, na enxada, no torno, nas cartas trocadas, nas fotografias, nos jornais mofados nos porões, nas histórias cantadas pelos avós.”. A preservação de tudo isso, é propiciar o encontro do homem com sua própria identidade.

Eu que habitei, amei a casa, ajudando meu pai a conservá-la, tenho um sentimento amargo de frustração e vergonha ao vê-la caída.

Desculpe-nos Prof. Mantovani!!

 

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