Adriana Marchiori, tem 37 anos e é mãe da Antonella, de três anos e Théo de 10 meses, que nasceram com alergia alimentar, condição que acontece quando a criança reage a diversos alimentos como o leite, ovos, proteínas vegetais e até mesmo algumas carnes.
Essa reação pode causar diversos prejuízos físicos, como anafilaxia, urticária, dermatites, vômitos, diarreias, entre outros sintomas, manifestando-se no sistema digestivo, pulmões e vias aéreas superiores.
Antonella reagiu logo nos primeiros dias de vida, quando após um parto cesariano, a mãe ainda estava no hospital. “Ela chorava muito, e naqueles dias eu ingeria leite com funcho, pois os antigos diziam que contribuía no processo de lactação. Saindo do hospital, a saga continuou. Revezava com minha sogra para conseguir dormir, e entramos em estado de exaustão em função de tanto choro. Ela chegou a desenvolver uma distensãoabdominal e hérnia umbilical por conta disso. Após os 50 primeiros dias, teve o primeiro episódio de sangue nas fezes, com isso vimos que era a hora de solicitar ajuda médica”, conta a mãe.
Diagnóstico
Após a visita ao pediatra, veio o diagnóstico de APLV, alergia à proteína do leite de vaca. “Tivemos que nos readaptar para que a situação amenizasse, e diminuíssem os episódios das reações alérgicas. Passado algum tempo, descobri uma nova gestação e o alergista já nos deixou a par de que poderia ser mais uma criança com essa condição, e em um nível mais elevado, o que de fato se cumpriu”, revela.
O caçula Théo, reagiu ao leite, ovos, proteínas vegetais, grão de bico e carne vermelha. “No início foi tudo muito restrito até que ele estabilizasse para novamente começarmos a inserir alguns alimentos. Acabei tendo que ficar a base de frango e arroz, verduras e frutas, para não desencadear nele reações como dermatites, diarreia, vômito, placas vermelhas na pele”, lamenta.
Em busca de alimentos seguros
Tentando proporcionar uma alimentação mais completa possível para os filhos, iniciou na vida de Adriana uma saga por produtos seguros, para que ela pudesse produzir em casa várias receitas. “A maioria dos componentes de produtos simples têm leite, até mesmo no sabão em pó e amaciante. Tive que dar um ‘resset’ em tudo que já tinha aprendido, e quando vou no mercado preciso ler todos os rótulos e quando fico em dúvida, ligar no SAC de cada marca. Alimentos industrializados nunca mais entraram em minha casa, pois eles sempre proporcionam as piores reações alérgicas”, revela.
E não é apenas ingerindo os alimentos que crianças com esse diagnóstico reagem, as vezes a contaminação cruzada ou um simples toque como beijos e abraços de quem teve contato com as substâncias, também podem provocar prejuízos sérios. “Toda família teve que reaprender a lavar as mãos antes de pegá-los, trocar de roupa. A Antonella já teve episódios de vômitos até que ela quase entrasse em desidratação, por conta de uma contaminação cruzada”.
A mãe revela que, toda essa situação os faz permanecer constantemente em casa, sem opções de locais de lazer. “Ficamos aprisionados pois o risco de elesfazerem uma anaflaxia seguido de um choque anafilático é muito grande”, frisa.
Criatividade e determinação
Adriana, como muitas mulheres fortes que não se contentam com uma vida de privações para filhos com restrições, resolveu se reinventar. Investiu em cursos e grupos que fizeram com que ela aprendesse a cozinhar alimentos seguros, parecidos com os que a maioria das pessoas costuma consumir. “Hoje faço de tudo, seguindo a culinária vegana, oferecendo segurança na produção de tortas, bolos, salgados, inúmeras receitas deliciosas”, conta orgulhosa.
E além de tudo, resolveu estender essa possibilidade à outras mães, comercializando esses produtos e apostando na criação de um e-book com receitas autorais para quem enfrenta a mesma situação. “Esse ano pude oferecer um bolo lindo no aniversário da minha filha, recheado, decorado e acompanhado de brigadeiro e salgados, foi minha maior felicidade. Para quem está enfrentando essa situação, não desista. Antes de dar certo, dá errado, muita coisa vai para o lixo. Procure suporte em grupos e com pessoas que passam pela mesma situação”.
A mãe afirma que essa condição é um desafio grande, principalmente porque as pessoas não têm conhecimento, e acabam sempre com o mesmo diálogo. “Um pouco não faz mal, deixa eles experimentarem, é o que eu sempre ouço. Alergia alimentar é vista como frescura de mãe, mas se não brigarmos com unhas e dentes, pomos em risco a vida dos nossos filhos”.
O e-book de Adriana, ainda está em construção, porém, todas as receitas produzidas por ela encontram-se disponível em sua página no Instagram: @misturainclusiva. “A alergia alimentar deve ser levada mais a sério, pois acaba se agravando na questão de saúde da criança”, finaliza.