A primeira crônica de 2024 poderia ser referente a uma corrente auspiciosa de bons sentimentos para este ciclo iniciado na última segunda-feira. Mas, acabei optando por algo um tanto mais amargo, a relação atual da sociedade para com seus princípios.
Não é uma questão pura e simplesmente de julgamento, mas uma breve reflexão partindo da história da nossa cidade. A leitura do politicamente correto e suas incongruências em assuntos como a imigração, patrimônios, espaços públicos e lugares de memória tem gerado debates acalorados e, em certos momentos, desconectados da realidade atual.
Pensar os fluxos imigratórios nas primeiras décadas do século passado com um olhar nostálgico e mítico, nos impede de perceber que atualmente estamos passando pelo mesmo processo, só que os atores sociais envolvidos não são europeus.
Da mesma forma, que refletir acerca dos patrimônios históricos, artísticos, arquitetônicos e culturais esbarra nos jogos de poder e de interesse. Esta correlação se aplica também aos espaços públicos e aos lugares de memória.
A luta pela sobreposição de narrativas e controle de suas variantes exige conhecer a realidade local, e o quanto e como ela dialoga com o mundo fora da bolha em que está inserida.
Todos estes elementos constroem as identidades que são legitimadas a partir dos interesses dos grupos sociais que estratificam o status quo.
É preciso pensar, repensar, refletir ou qualquer outro verbo com conotação sinônima sobre como estes elementos impactam na nossa realidade, na verdade, como eles interferem em nossos processos de subjetivação e sociação.
Esta talvez seja uma proposta ousada e perigosa, pois é um claro terremoto em nossa zona de conforto. Afinal, entrar e se manter nela, é fácil. Já sair, são outros 500.