Erechim, 09 de janeiro de 2024, estamos entrando nos 106 anos de emancipação político administrativa, ou seja, já passamos de um século de existência, de crescimento, de desenvolvimento e da busca constante de estar, cada vez mais, na crista da onda, ou seja, ser uma cidade ideal para viver, crescer e investir.
Mas, nestas dez décadas muito coisa aconteceu, se transformou, melhorou e evoluiu, mas também sofreu várias baixas históricas ao longo deste caminho, e uma delas foi a estação férrea de nosso município, Símbolo da modernidade na época de sua colonização, já que trazia a mão de obra e levava o resultado do trabalho de muitos para vários pontos.
Como as demais estações férreas do Brasil, representava o caminho para cruzar o estado e o Brasil, já que viajar em seus trens representava muito para quem teve a feliz oportunidade de aproveitar esta época dourada. Lembro das viagens com a família para Marcelino Ramos e para Tupanciretã, ou seja, uma aventura em cima dos trilhos com a nostalgia entre o passado e o futuro que se aproximava cada vez mais acelerado.
Mas, como nem tudo é como a poesia que é eterna, chegaram os caminhões, a força das grandes multinacionais de óleo e pneus e o ferro dava lugar ao asfalto e as estradas intermináveis abertas pelo país afora na época da ditadura militar. Enquanto o mundo evoluía no tema ferrovia, o Brasil dava as costas para um dos melhores meios de transportes.
Em Erechim, nossa estação já passou por diversas administrações, teve algumas modificações internas, usos diversos, mas nunca teve uma atenção histórica, de preservação ou de fazer da mesma um marco zero para contar a história de nossos imigrantes. Hoje serve para abrigo de indígenas na sua área externa, painel para grafiteiros e ponto para usuários de drogas. Sucumbindo ao tempo, aguarda uma ação mais pró ativa como municípios da região, tendo como um grande exemplo a cidade de Gaurama.
Neidmar Alves (2021)
Nesta administração, vale lembrar a visita do então Secretário de Cultura Neidmar Alves que juntamente com o vice-prefeito Flávio Tirello, no ano de 2021 anunciaram que a Estação Ferroviária estava na rota de projetos da Pasta.
“Essa visão de recuperar os espaços que temos, entender a utilidade que cada um vai ter, e principalmente gerar espaços de lazer, vem a encontro do que pensamos no pós-pandemia. Precisaremos estar prontos para desenvolver o potencial turístico da nossa cidade”, pontuava o vice-prefeito de Erechim Flávio Tirello.
“Desde o início do ano, a pasta tem realizado projetos para estimular espaços artísticos culturais no município, e o prédio histórico inaugurado em agosto de 1910 deve receber uma atenção especial. Para iniciar os estudos de viabilidade, os espaços que eram ocupados na Estação Ferroviária estão sendo desocupados. Além disso, a parte de trás do prédio que tem sido ocupada como acampamento de indígenas por diversas vezes também já foi desocupada”, ressaltava matéria na imprensa na época.
Conforme o secretário de Cultura, Esporte e Turismo, Neidmar Alves, a pasta estaria desenvolvendo um projeto que tratava da estruturação de um Complexo Cultural, que estimulasse atividades artístico culturais e também o turismo da cidade. “Erechim tem espaços já consolidados como pontos turísticos e nós estamos trabalhando para estimular essa área, dar a ocupação e atenção adequada a estes espaços”, garantiu na época.
Altemir Barp (2017)
No primeiro ano do governo Schmidt (2017) o artista plástico Harryson Testa (que era diretor na secretaria de Obras) e o então secretário de Desenvolvimento Econômico, Altemir Barp estiveram em Curitiba, na Rumo Logística que detém a concessão da viação férrea em Erechim e região, onde foi solicitado a devolução para o Dnit da Estação Ferroviária. Na época, segundo Testa, e o prédio foi repassado para o município em formato de concessão por 30 anos e já tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Problema social
Após essa parte inicial, dois projetos foram encaminhados para Brasília, um junto ao Ministério das Cidades e outro no Ministério do Turismo: “o objetivo é arrecadar verbas para recuperar o patrimônio, já que o município não possui recursos para tal finalidade. Além da falta de recursos, precisa resolver um problema social, já que o local virou um acampamento de indígenas”, apontava o secretário.
O projeto previa a transformação do local num sebo, para leitura, com bar, lancheira, como um pub (aos moldes do que foi feito em Passo Fundo). “No local também, sempre se frise, caso os recursos sejam alocados pelo governo federal, será feita salas de museus, museu da ferroviária (Gaurama já fez o seu), além de local para informações turísticas e exposição de artes de todos os tipos: um dos objetivos também é fazer funcionar junto a Estação Ferroviária a secretaria de Cultura, Esporte e Turismo” reforçou na época o secretário Barp.
Najaska Martins
Em matéria feita pela jornalista Najaska Martins, ainda em 2016 quando atuava no Grupo Bom Dia, refletia um pouco sobre o local: “As paredes pichadas, o lixo sobre os trilhos e o vazio que toma conta da Estação Férrea de Erechim nada se parece com o espaço antes marcado por intensa movimentação e barulho do trem. A única semelhança àquela época está, talvez, nas várias vozes misturadas que compõem as conversas que acontecem logo ali, ao lado. Diálogos paralelos a tal espaço e que vêm de pessoas que aguardam os ônibus que as levarão para os vários pontos da cidade que se formou a sua volta”.
Considerada como marco zero de Erechim, ela foi inaugurada em agosto de 1910 permitindo que em seu entorno, pequenas comunidades fossem se instalando, transformando-se em vilarejos que foram colaborando para a ocupação regional. As primeiras famílias foram chegando ao então povoado por volta do mesmo ano.
O documento referente à lei municipal nº 3.311, de 19 de setembro de 2000, que considera patrimônio histórico e cultural do município a mancha ferroviária de Erechim e autoriza o Executivo Municipal a determinar a abertura de processo de tombamento traz aspectos históricos acerca da construção da estrada de ferro.
De Paiol Grande a Erechim
A colônia de Erechim foi criada pelo governo estadual em 1908. Sua sede era no atual município de Getúlio Vargas, sendo que a localidade do atual município de Erechim chamava-se Paiol Grande, caracterizando-se como um pequeno povoado que foi crescendo com a chegada dos trilhos e a inauguração da estação ferroviária em 1910.
“A existência da ferrovia facilitou e incentivou a imigração que foi bem considerável a partir de 1910. Em 1916, o Escritório da Comissão de Terras foi transferido de Erechim (atual Getúlio Vargas) para Paiol Grande (atual Erechim). Este fator somou-se ao da ferrovia para dinamizar o crescimento local” relatava a matéria.
Os últimos trens
Foi no ano de 1997 uma das últimas vezes em que o trem passou por Erechim. A linha Marcelino Ramos/Passo Fundo está desativada desde 1997, quando foram suspensas todas as atividades de transporte de cargas ferroviárias com a concessão da Rede Ferroviária Federal à América Latina Logística (ALL).
Carla Talgatti
Questionada sobre o tema, a atual secretária de Cultura e Esportes, Carla Talgatti destacou que existe um projeto em andamento, que é a longo prazo, uma vez que foram judicializados alguns pontos e que devem esperar junto as etapas, como por exemplo a desocupação do local para fazer o restauro do local.