A história de Erechim reflete o momento político e administrativo do estado do Rio Grande do Sul após os desdobramentos da Revolução Federalista (1893/1895), principalmente a necessidade de ocupação da terra (formalmente, tendo em vista a existência de negros, indígenas e caboclos nas terras devolutas), e consequente luta por sua posse e ocupação.
As narrativas construídas por intermédio das obras clássicas atenuam em grande parte este processo de luta pelas terras devolutas. Isto é fruto da busca constante pelo controle da reescrita do passado, para que sejam exaltados os aspectos positivos (em alguns casos até de maneira romanceada) em prol de uma consolidação de uma identidade e fortalecimento de determinados valores.
Este modelo não é uma exclusividade local, é consequência de demandas governamentais em esfera estadual e federal que buscam consolidar os elementos constitutivos da identidade nacional, mesmo o Rio Grande do Sul carregando a pecha de seus processos revoltosos (inclusive de cunho separatista.
Debater este cenário é difícil em qualquer local do globo. Questionar identidades, passados comuns e narrativas é quase uma heresia. Discutir a respeito destes elementos, não quer dizer necessariamente, que tudo será resetado, restando apenas uma “terra arrasada”.
Pelo contrário, é a chance de construir novos saberes, novas narrativas, não estou falando aqui daquele revisionismo que nega o holocausto, as ditaturas do Cone Sul ou o genocídio armênio. Revisar é trazer novos atores ao debate e levar em consideração os testemunhos vivos, a luta pela hegemonia das narrativas, pelos espaços públicos e monumentos.
A priori, é construir outra via sem excluir a primeira, elas devem coexistir pois são fruto de um tempo histórico que já se modificou. O exemplo mais emblemático é os avanços pela igualdade de gênero (mesmo que ainda esteja longe do ideal). Podemos refletir acerca das novas responsabilidades, das discrepâncias salariais, da jornada tripla de trabalho...
Perpassamos nesta breve coluna pela ocupação das terras devolutas, pela hegemonia das narrativas e do passado e pela questão da igualdade de gênero, para reforçar que a escrita de uma história é fruto do tempo em que ela está inserida, o que nos cabe é analisar os prós e os contras, de maneira que se possa construir mudanças.