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Opinião

Reflexões de Ano Novo (IV)

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Por Henrique Trizoto -Coordenador do Arquivo Histórico Municipal Juarez Miguel Illa Font

Iniciando a penúltima reflexão desta série, evoco novamente fragmentos da obra Sociedade Paliativa – a dor de hoje, de Byung Chul Han (Vozes, 2021): “Vivemos, hoje, em um tempo pós-narrativo. Não a narrativa [Erzählung], mas sim a contagem [Zählung] determina a nossa vida. A narrativa é a capacidade do espírito de superar a contingência do corpo”.

Esta reflexão é ancorada em Walter Benjamin, e sugere que a narrativa poderia curar a doença, de maneira que o “O corpo ganha poder onde o espírito se retira. Em vista da veemência da dor tornada sem sentido, não resta nada ao espírito senão confessar a sua impotência”.

A fim de trazer para nosso cotidiano e facilitar o debate, trago mais uma vez o cenário exposto pela desinformação social e pelas fake news acerca da vacinação ou mesmo do movimento terraplanista – meus amigos geógrafos têm trabalho para explicar teorias cientificamente comprovadas para pessoas que acreditam em um teste a olho nu ou com um lápis são suficientes para refutar a ciência, e olha que tivemos um ministro que foi astronauta e viajou para o espaço...

Se, com elementos cientificamente comprovados estamos tendo problemas para compreender o óbvio, imaginemos, as possibilidades para bem e para mal de uma ciência empírica como a História na era do “se eu acredito é verdade”.

O revisionismo puro e seco opta por criar teorias que negam fatos amplamente debatidos, e quando isso não é possível, passam a relativizá-los com paranoias como a ideia de que a história da violência contra indígenas seria romanceada ou exagerada, tendo em vista que existiam conflitos tribais. Ignorando, portanto, um complexo arcabouço cultural que envolve as disputas tribais e que as doenças e a pólvora são infinitamente mais efetivas que o arco e a flecha.

A complexidade da construção das narrativas parte destes cenários, onde quem domina a caneta escreve aquilo que lhe convém, reforçando ou suavizando tudo aquilo que ocorreu.

Partir do pressuposto que não existe uma verdade absoluta não quer dizer que ela seja negociável...

Racismo, homofobia, misoginia e demais formas de preconceito devem ser combatidos e não relativizados.

Da mesma forma que a ciência não é negociável, combater a desinformação social e as fake news urge.

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