Não há, no mundo, algo mais certo do que a morte. Desde o momento em que nascemos estamos predestinados a ela. E Saramago, em “As intermitências da morte” escreve, magistralmente, sobre esse desenlace, nos levando à reflexão do que se transformaria o mundo se ela, essa doida, que põe fim à vida, resolvesse, de repente, suspender suas atividades.
O caos se imporia, mostrando-nos que a morte é necessária.
Assim, nessa época do ano, a da Páscoa, duas palavras, mesmo que não percebamos, são as mais usuais - morte e ressurreição. Elas retomam toda uma Via Crucis, dolorosa… amargurante… cheia de traições… sangrenta… permeada de lágrimas e consolações … para logo, ali adiante, em momento glorioso, falar sobre Ressurreição.
Quem não tem, ainda hoje, nas suas retinas, aqueles quadros da Via Sacra e aquele de Jesus, envolto em diáfanos tecidos brancos alçando ao céu?
E um pouco perdida nessas reflexões, depois de passadas duas décadas e meia, sinto-me mais equilibrada em falar dessa época e da sua relação com meu pai.
Era uma Quinta-Feira Santa (assim é que nos referimos a esse dia, desde crianças) num primeiro de abril - sempre tido como o Dia da Mentira - que nosso pai Pedro, nos pregou a maior peça. Juntou-se ao sofrimento de Cristo, Ser ao qual sempre rendeu os maiores tributos, deu os braços à Morte, e foiiiiiii-se. No dia seguinte, Sexta-Feira Santa, a cerimônia de despedida na Catedral São José, encerrava-se no exato momento em que se comemorava, às 15h, a morte de Jesus.
Seria coincidência a morte dele, do Seu Pedro, do nosso pai, juntar-se à morte de Jesus? Ou não?
Acho que não foi mero acaso. E se não foi acaso, deixou-me muitas reflexões.
Dentre elas, é a de que morrer é despir-se do corpo físico, apenas. De quem morre, fica em nós seu sangue, embora isso seja o menos importante.
O que lateja de verdade são as lembranças das balas trazidas depois de um jogo de cartas com os amigos. E do jornal Correio do Povo, que precisava ser lido na mesa, de tão grande. E do auxílio nas atividades da escola. E dos elogios que vinham desde o quadro pintado sob o olhar atento da Irmã Justina, até o verso declamado e a roupa usada para ir à missa da Páscoa. E do olhar azul profundo e vazio quando algo não estava bem. E dos passos dados para levar-me ao altar. E das caronas dadas aos meus professores que vinham de fora. E servir de avalista para poder contratar uma peça de teatro “Oração para uma Negra” sem nem saber o risco que corria (vendemos todos os ingressos e seu aval não foi em vão). E pilotar uma camionete Dogde para transportar o Papai Noel na sua carroceria. E buscar um pinheirinho natural nas suas terras, o mais bonito, para o Natal em família.
E então, impossível não ir fazendo uma tessitura de tudo isso quando chega essa época.
Relacionar MORTE e RESSURREIÇÃO não é fácil.
Apesar de a morte ser necessária, e muitos vão às despedidas ofertando palavras como “viveu 92 anos - isso é uma bênção “ ou “deixou de sofrer”, a morte é sempre muito dolorida. É necessário viver esse luto. Desfaço-me das amarras, mas nunca da herança que está nas minhas entranhas.
Por isso, hoje, vivo e revivo com todos os cristãos esse momento que relembra a passagem entre os dias finitos e a vida eterna, na certeza de que a humildade, o trabalho sério e justo, o respeito entre irmãos, a solidariedade, fazem o verdadeiro sentido da Páscoa… da Passagem… do Pessach… seja lá como cada um chama esse momento.
E eu também aproveito para continuar esse tempo de travessia entre a vida e a saudade de meu pai, que já dura 25 anos.
A bênção, meu pai. A bênção Jesus. A ressurreição nos acalma.