Como vimos em 19 de março, nem sempre o “feriado municipal de aniversário de emancipação política e administrativa” coincide com o “Dia do Padroeiro”. E, em 30 de abril Erechim completa 106 anos. Hoje trago uma breve reflexão de como estas datas se consolidaram no nosso calendário.
Silva (2004) trata estas comemorações como forma de “re-presentificação” de memória em disputa ou silenciadas, ao mesmo tempo em que identidades individuais e coletivas são (re)construídas a partir de locais híbridos que genericamente poderíamos chamar de festa.
“A festa, nessa perspectiva, é um local híbrido porque nela estão presentes material, temporal e simbolicamente não só diferentes grupos étnicos, religiosos, políticos e econômicos que advogam para si vantagens em relação a outros grupos com base no passado, mas também aqueles a quem estes grupos, através da (re) construção do passado, tentam silenciar, mas que nem sempre conseguem. E se não conseguem, é porque talvez os sujeitos os quais se pretende silenciar fazem da sua ausência nos cerimoniais e discursos comemorativos uma presença constante por meio de "gritos simbólicos" que irrompem por todos os lugares da festa” Silva, 2004).
Esta relação entre datas cívicas e festas, tem se ressignificado de acordo com os processos históricos, sociais e políticos do período em questão um exemplo dessa perspectiva é a construção de álbuns comemorativos.
Segundo Knack (2013) eles foram [são] “produzidos com intuito de vencer o tempo, de cristalizar os respectivos imaginários das cidades a que se referem; nesse sentido são objetos ligados à memória coletiva dos grupos que representam. Resultam, e ao mesmo tempo legitimam um regime de historicidade. Projetam uma determinada visão de história, apresentam as datas, acontecimentos, lugares e personagens que devem ser homenageados e celebrados, portanto, reconhecidos pela coletividade a partir de um trabalho de enquadramento da memória. Reforçam os imaginários fornecendo esquemas para interpretar o passado. Ajudam a estabelecer as datas, os fatos, para a coletividade realizar operações de classificação e seleção daquilo que deve ser considerado a memória e a história da cidade”.
Estas comemorações podem ser consideradas, portanto, como ferramentas capazes de consolidar o sentimento de pertencimento, aproximando a comunidade de sua história por meio de eventos que as levam a compreender que a data em sí não é “só” mais um dia, mas sim uma soma de construções sociais e políticas que culminaram no “Aniversário da Cidade”, ao mesmo tempo, possibilitar a reflexão da importância do respeito a diversidade, aos bens comuns, patrimônio histórico, artístico e cultural do local.
Referências
SILVA, Adriano Larentes da. Presente e passado em comemorações de aniversários de municípios. Esboços: histórias em contextos globais, v. 11, n. 11, p. 65-72, 2004.
KNACK, Eduardo Roberto Jordão. Cidades em álbuns comemorativos: história, memória e visualidade. Revista Latino-Americana de História, v. 2, n. 7, p. 273-290, 2013.