21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Opinião

Literatura: dos primórdios a revolução digital

teste
Alcides Stumpf.
Por Alcides Mandelli Stumpff - Médico; Membro da Academia Erechinense de Letras; Presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS
Foto Divulgação

As chamadas grandes artes e, particularmente, a literatura, por muitos séculos foram expressão estética da grandeza do Estado ou da Religião.

Podemos usar como exemplo as Pirâmides de Gizé, no Egito; o Partenon de Atenas e a Escultura de Zeus em Olímpia, na Grécia; a Capela Sistina, no Vaticano. Obras como a Odisseia de Homero, Eneida de Virgílio e A Divina de Dante Alighieri, O Príncipe de Machiavel e a incrível produção de William Shakespeare, reforçam esse conceito.

Pouco sobrou, sob escavações arqueológicas da arte e da literatura popular.

Na sequência histórica de acontecimentos, inaugurados pelo Renascimento Italiano e o consequente esplendor do pensamento humanista, aposto à criação da prensa gráfica por Joahnnes Gutenberg, na Alemanha, resultaram em grande mudança que transformou a cultura e a sociedade europeia durante a Modernidade.

Mais tarde, a Revolução Francesa inaugurou uma nova era na história ocidental, de modo a emancipar por igual os artistas e, particularmente, os escritores, libertando-os dos seus patrocinadores históricos, repito, o Estado e a Religião.

De certo modo, paradoxalmente, num primeiro momento, os artistas, então livres de seus patronos, sentiram-se desamparados. Muitos foram destruídos pela incompreensão, álcool, ópio, privações de todas as naturezas, além do sentimento de orfandade.

A liberdade estética cobrou alto seu preço.

O filosofo prussiano Friedrich Nietzsche, no século XIX, enxergou nisso o maior perigo à grande arte, pois a ausência da tutela erudita impelia os artistas a seguirem o gosto popular, encaminhando-os par e passo à banalidade, ao mau gosto e à vulgaridade.

Na sequência dos tempos, outras ameaças passaram a rondar os autores contemporâneos, mormente nos últimos cem anos.

Uma, foi colocar a criação literária a serviço de causas sociais e políticas, transformando o autor em ativista de reivindicações proletárias e pobres, em geral. Por outro lado, o fascismo, igualmente, usava as artes e a comunicação de massas para propagar o regime.

 Ambos, polos totalitários, faziam dos escritores mercadores panfletários de ideias exóticas e estranhas à liberdade de expressão.

A intelectualidade atual, por sua vez, em grande parte, segue dispondo suas habilidades para satisfazer os inconstantes, crescentes e insaciáveis gostos da sociedade de consumo e interesses sub-reptícios de movimentos geopolíticos planetários.

Esse tema é abordado com maestria por Ain Rand, escritora norte-americana-russa, em Manifesto Romântico, recentemente lançado no Brasil com primorosa tradução da amiga Mariane Schilling Saraiva.

Enfim, grandes mudanças, no modo de viver das pessoas, especialmente após as grandes guerras, estão conduzindo a humanidade à globalização econômica e cultural de forma irreversível.

Tal mudança pode ser entendida como tóxica aos valores estéticos, morais e espirituais que sustentam a literatura como a conhecemos. Foram feridos de morte os regionalismos e as tradições locais.

No entanto, muitos escritores ainda se negam a aderir qualquer movimento externo ou modismo passageiro e insistem em viver numa espécie de limbo estético, às vezes bem, outras vezes mal aceitos pelo público leitor.

Hoje, temos aqui doze escritores da nossa terra, indicados por doze vereadores, cada um com suas características pessoais e que de forma muito peculiar colaboram para o engrandecimento de nossa sociedade.

E este que vos fala, médico, cooperativista e escritor, com três livros de crônicas e reflexões sobre o cotidiano, indicado pelo vereador Fifo Parenti, a quem agradeço com respeito, admiração e carinho.

Por generosa deferência, me foi dada a incumbência de falar pelos homenageados e agradecer a honrosa distinção que celebra o legado de Alba Albarello, uma figura emblemática cuja vida foi dedicada à literatura, à educação e à promoção da cultura.

 A obra inspiradora da professora Alba nos impele a continuar nossa jornada criativa, especialmente diante de desafios impostos pela decadência cultural dos últimos tempos, como explicitado anteriormente.

Faço minha fala com humildade e reconhecimento a cada um dos pares pela autenticidade e independência de seus textos que difundem ideias essenciais à formação cultural, moral e ética da nossa amada Erechim.

 Em cada diferente obra podemos observar repertórios diversos que trazem à luz a heterogenia, miscigenação e criatividade tão características da pluralidade etnológica de nossa gente.

Ao encerrar esse pronunciamento, lembro que estamos vivendo um momento impar na história da humanidade. No limiar de uma Nova Era, que iniciou há pouco mais de trinta anos, jamais vimos o mundo mudar de forma tão radical, intensa e veloz.

Falo da Revolução Digital, que entrou definitivamente na vida de todos nós.

Dos micros computares aos palmtops, peças indispensáveis à sobrevivência na atualidade, da robótica que atua deste a montagem de grandes máquinas a microcirurgias complexas, desde a mais simples planilha de Excel à Inteligência Artificial, estamos no início da suprema aventura da raça humana – e por certo, não sabemos o final.

Como outras grandes mudanças, já citadas há pouco, tal como o fim dos grandes impérios, o Renascimento, a Revolução Francesa e o Pós-Guerras, esperamos que as novas circunstâncias nos façam pessoas melhores, seres humanos realmente mais humanos, e que em paz, sob a égide da justiça e da liberdade, possamos seguir produzindo nossos textos para enaltecer o belo, acrescentar conteúdo espiritual e colaborar para o bem comum.

Ao encerrar deixo uma frase de Claude Debussy, compositor Françes: “A Arte é a mais bela das mentiras”.

Assim, em nome dos agraciados, deixo os nossos mais sinceros e profundos agradecimentos a todos.

E um tributo muito especial à nossa imortal Alba Albarello.

OBS: Discurso Dr. Alcides Stumpf, na última terça-feira, 30, na Câmara de Vereadores de Erechim, representando todos os homenageados com o Certificado Cultural Professora Alba Albarello

 

 

Médico

Membro da Academia Erechinense de Letras

Presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS

 

Publicidade

Blog dos Colunistas

;