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Opinião

Dor e reação

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Dr. Alcides Mandelli Stumpf - Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras
Foto Rodrigo Finardi

 

Há alguns anos, li uma crônica de Carlos Heitor Cony sobre nossas perdas afetivas e dores reclusas – e não mais esqueci. Contava, o acadêmico, com sua agradável prosa, uma historinha que reflete bem o que muitos de nós sentem perante as agruras e sofrimentos que a vida impõe e, no mais das vezes, não sabemos como externar. Cheguei a guardar o recorte, mas acabei perdendo-o com o tempo, como se perdem muitas coisas boas nas gavetas, arquivos, computadores e na própria memória.

Dizia o mestre mais ou menos assim:

Eis que estavam num castelo, no interior da Inglaterra, um lorde e seu mordomo, a contemplar a pradaria ao cair da tarde. A paisagem era límpida, verdejante, e só se ouvia e sentia o leve sussurrar da brisa que soprava do poente. O lorde, acomodado em sua poltrona, fumava um bom cachimbo e contemplava absorto o horizonte, onde se acumulavam nuvens cinzas sob o sol preguiçoso. O mordomo, que se chamava James (não sei o porquê, todos os mordomos ingleses se chamam James), aproximou-se com um whisky e ofereceu-o gentilmente ao senhor. Pelo momento e delicadeza, aproveitou o clima para puxar conversa. Ao mirar as densas nuvens que se aproximavam da casa, James falou ao lorde: “Sir, creio que teremos chuva ao final da tarde...” Indagação prontamente respondida pelo patrão, com fleuma dos lordes: “Engano seu, meu caro James. De forma alguma teremos chuva ao final da tarde. Na verdade, você terá a sua chuva e eu terei a minha”, dando a conversa definitivamente por encerrada.

Tal relato mostra com propriedade como os acontecimentos são percebidos e tratados diferentemente por uns e outros. A chuva do lorde não era a chuva do James; tampouco, a chuva do mordomo pertencia ao lorde. Embora fosse a mesma chuva, cada qual a via e a sentia de forma singular, a seu modo e jeito.

O mesmo acontece com algumas perdas pessoais e outras generalizadas. A tragédia proveniente das chuvas que assolam o Estado é exemplo típico: embora coletiva, não é sentida ou enfrentada com uniformidade.

Cada um tem os seus atingidos - amigos, colegas, parentes distantes ou próximos, mais ou menos afetados pela desgraça.

Os suplícios guardados no fundo dos corações, que ora, parecem infinitos e irremediáveis provocam sentimentos diversos e reações mais diversas ainda.

Ninguém, por mais que queira, consegue ouvir o choro aflito de uma criança ou o silêncio brutal que o outro guarda no peito ante o sofrimento ou morte dos que mais ama.

 De tal modo, recomendo que fique o leitor com seus desgostos, compaixões ou tormentos e entenda que a vida é assim mesmo, o destino assim funciona.

Fique quieto em sua dor e não reparta com ninguém o que é impossível dividir. Fique com as suas vítimas que eu fico com as minhas; fique também com a sua chuva que não é a mesma que a minha, embora molhe a nós todos.

No entanto, cabe a cada indivíduo, igualmente, reagir e procurar a superação, seja lá como for. Cada qual com seus dotes, capacidades, empenho e desassombro deve reagir e colaborar para o bem comum.

Sejamos, pois, fortes ante as incertezas; lutemos para que o medo não se dissemine de modo a despertar instintos mais primitivos que podem conduzir ao caos total e a barbárie.

Sim, nós somos diferentes porque o caráter de nossa gente foi forjado nas guerras, revoluções e migrações penosas. Mais uma vez, diferentes, vamos lutar e vencer o inimigo horrendo e a dor que nos aflige. Cada um do seu jeito, mas todos juntos, um único povo, uma única vitória.

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