Vivendo em constante pressão, precisam lidar com questões internas e externas a todo o segundo e por isso destacam a importância de manter a saúde mental em dia
Rebeca Andrade aos 25 anos é a atleta com o maior número de medalhas olímpicas do Brasil. Além de toda a dedicação ao esporte e aos treinos, a ginasta frisa a importância de manter a saúde mental em dia.
Para ela, que além da Ginástica, cursa Psicologia e faz terapia desde a infância, sua luta é vencer a si mesma: "Acho que não é só sobre vencer a Simone, é sobre vencer a mim mesma. A minha briga está na minha cabeça, não está nas outras pessoas. Para conseguir fazer as minhas apresentações, preciso controlar a minha cabeça, o meu corpo, e essa é a briga, porque eu e a Simone, a gente se incentiva, a gente quer dar o nosso máximo, então a minha briga é sempre comigo mesma."
Muitos atletas e outros profissionais que vivem o seu dia a dia sob pressão, ainda abdicam dos cuidados com a saúde mental. Porém, pesquisas mostram que o acompanhamento psicológico para atletas não deve, de forma alguma, ser negligenciado. Três em cada dez esportistas de alto desempenho apresentam sintomas leves ou moderados de depressão, 16% sofrem com sintomas moderados de ansiedade e 24% relataram já ter pensado em cometer suicídio.
Para a psicóloga e psicanalista erechinense Ana Paula Bertotti, esses números apenas corroboram com a pressão que a sociedade vem sofrendo de uma forma geral para não cometer erros, beirando uma perfeição que não existe. “Além da autocobrança, há as cobranças externas que chegam por todos os lados”, pontua.
Bertotti lembra que não saber lidar com as frustrações tem um peso muito grande quando se falha. E cada vez menos isso é permitido. Em seu recente livro, intitulado A-corda, a psicanalista traz alguns assuntos referentes as inquietações humanas na atualidade, e um de seus textos fala exatamente sobre isso, “nos tornamos pássaros trancados na gaiola da demanda do Outro, e o preço da liberdade de sermos quem somos se torna impagável.”
A importância de cuidar da saúde mental
Saúde mental, como o próprio nome diz, é saúde. Por que negligenciá-la? Cuidar da cabeça traz inúmeros benefícios para o dia a dia e para a saúde como um todo. Ana Paula frisa que, estar mentalmente saudável impacta positivamente nos resultados, contribui na capacidade para manter o foco e a concentração durante suas atividades, fortalece a capacidade para lidar com os desafios e conflitos e torna o sujeito capaz de avaliar as situações e escolhas, o que facilita as tomadas de decisões. Ademais, desenvolvem habilidades para gerenciar e lidar da melhor forma com situações de pressão que tendem a produzir estresse e ansiedade.
A médica Valeska Ronsoni, lembra da sua época de plantões, quando teve o primeiro óbito de uma paciente, “foi terrível, chorei dois dias. Fiz tudo que podia, mas mesmo assim a gente se sente incapaz”. Valeska já fazia terapia na época e ressalta como isso foi importante para lidar com esse momento, ainda que soubesse que como dermatologista, não se defrontaria diretamente com a morte, como é o caso de um neurocirurgião, por exemplo.
Muitos estudantes de medicina ao se depararem com a finitude da vida pela primeira vez entram em choque, se perguntam se é aquilo de fato que pretendem seguir. A morte é algo natural, lidar com isso nem tanto. Contar com a ajuda de profissionais é fundamental para conseguir enfrentar todo esse processo e seguir em frente.
Valorizando o cuidado com a saúde mental
Cuidar da saúde mental ainda é um tabu. Muitas pessoas têm vergonha de procurar ajuda profissional, pois se sentem constrangidas e com medo de serem taxadas como “loucas”.
O fato de atletas de peso como Rebeca Andrade e Simone Biles falaram abertamente sobre o assunto, tem feito com que as pessoas olhem mais para essa questão. Bertotti costuma fazer as seguintes perguntas: “E o que é normal? E quem define o que é normalidade? A questão não se trata de ser louco ou não, mas de buscar uma forma de viver sem sofrimento e com mais sentido. Cada pessoa tem a sua subjetividade, o que nos torna únicos”.
O ponto positivo é que, alguns estudos já mostram que a preocupação com a saúde mental triplicou. Ana acredita que a pandemia tem grande parte nessa busca e torce para que, pós Olimpíadas, os números aumentem ainda mais.