“ Homens e mulheres com seus cabelos louros, pele sardenta e olhos azuis pisam o chão da estremadura meridional brasileira. Seus filhos correm e pulam, na alegria infantil das descobertas. A terra é dadivosa, o clima ameno. O rio e a selva uma policromia, lembrando as regiões avoengas do Reno, do Mosela...”
A travessia
Navegam...agricultores alemães irão colonizar o Rio Grande do Sul. São quase todos naturais da região do Hunsrück – Rio Reno. Vieram ao convite brasileiro sugerido pela Imperial Princesa Dona Leopoldina. Aceitaram esperançosos. Atravessam o “Mar Tenebroso” dos antigos descobridores. Mar onde, lendas marujas, dizem navegar monstros que afundam navios e devoram os tripulantes. Embarcados no “Wilhelmine”, uma frágil embarcação, sentem náuseas e vertigens ao balanço das ondas e a primeira angústia da separação. Uma antecipada saudade aumenta-lhes uma sofrida maresia...
Motivos da vinda dos alemães
Os imigrantes alemães que saíram da Europa vieram ao Brasil com várias promessas de nova vida. A sobra de mão-de-obra pelo advento das máquinas, as guerras e graves problemas de subsistência os trouxeram. Havia muita miséria e fome, os estados alemães estavam devastados e o alistamento militar, muitas vezes, era obrigatório. Não imaginaram que eventos difíceis pudessem fazer parte da nova vida. Assim, pode-se compreender como foi bastante complexa a vivência num novo país com cultura totalmente diferente.
Na nova Pátria
Eles foram recebendo suas porções de terra nas colônias. Os matagais foram uma experiência muito difícil e acharam-se isolados. Historiadores contam que construíram casebres e abriram caminhos. Entre os primeiros vindos, além de colonos, estavam soldados, religiosos e médicos. Estavam também artesãos, tecelões, carpinteiros, escultores, ourives e ferreiros. Foram os iniciantes da prosperidade econômica gaúcha. Mesmo depois de algum tempo, a língua era um entrave difícil para a compreensão dos fatos e com relação à política. Muitos foram inseridos no contexto sem ter conhecimento do que se passava. Alguns imigrantes viram-se envolvidos até no conflito dos Farrapos.
Nos séculos XIX E XX
Foi quando chegaram grande número de imigrantes alemães ao Brasil. São Leopoldo é considerado o berço da colonização alemã no Brasil. Alguns provenientes das regiões da Renânia, Pomerânia e Silésia chegaram à chamada Colônia Santa Cruz, no Vala do Rio Pardo em 1847. Assim, lá iniciou a segunda fase de imigração alemã no Rio Grande do Sul. Outras colônias pioneiras foram São Borja, Dom Pedro de Alcântara, Três Forquilhas incluindo Torres e Itati, isso entre 1825 e 1826. Outros grupos se estabeleceram no Vale do Taquari: Estrela, Lajeado, Arroio do Meio, Forquetinha e Colinas – 1853. Neste tempo também chegam a Nova Petrópolis. Grupos vindos da Renânia, Saxônia e Pomerânia em 1857 chegam a Agudo. Outros vindos da Westfália iniciaram a colonização de Teutônia e São Lourenço do Sul. Em 1902 chegam à Região das Missões e pouco tempo depois aproximam-se da Região do Alto Uruguai inclusive na Região da Grande Erechim. Eles foram avançando ao interior diante de um planejamento técnico, não por acaso. Foi iniciada uma comissão para estudar locais com boa natureza, áreas e terras. O Império intencionava a construção de ferrovias nos locais onde avançaram. Muitas aconteceram, mas a ideia não foi adiante, como sempre, por falta de recursos. A construção de escolas comunitárias e de igrejas foram o embrião das novas localidades.
Dificuldades na Segunda Guerra
A vida dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, foi complicada para os imigrantes e seus descendentes. A Alemanha estava entre os países do Eixo, em lado oposto ao brasileiro durante o conflito. Desta forma, novamente o processo de colonização foi interrompido. O governo de Getúlio Vargas – presidente- proibiu que se falasse alemão e houve perseguição mesmo a quem não era simpatizante do nazismo. Aqui, surgiu a comemoração da Oktoberfest, em 1911, como uma forma de manifestação contra as sanções governamentais das atividades culturais que representavam os alemães. A língua alemã, que era falada nas escolas, eventos e comunidades perdeu-se por uma geração. Nem estre famílias conseguiam se expressar em alemão. Muitos pais faziam questão que os filhos a falassem. Era praticada às escondidas, à noite, com a casa fechada. Mas, muitos jovens, hoje, desconhecem a língua de seus ancestrais e necessitam de cursos para aprendê-la. No período de conflito foi grande o ingresso de alemães no Brasil.
Preservação da cultura alemã
Entre 1994 e 1995, começou no Rio Grande do Sul o projeto turístico Rota Romântica. Ele resultou da viagem de uma delegação à Romantische Strasse na Alemanha. Hoje, 14 cidades, ligadas por rodovias como a BR 116, fazem parte da Associação dos Municípios da Rota Romântica. Foi uma forma de fomentar o turismo e a cultura através da preservação da cultura alemã. Cada município apresenta atrativos e peculiaridades. A língua é usada e são apresentados usos e costumes. A culinária é a atração principal envolvida na música tradicional. A hospitalidade do povo dessas regiões é o fator da grande procura e um elemento importante na economia desses locais.
Bicentenário da chegada dos alemães
Em 2021, o governador Eduardo Leite instituiu, por decreto, a Comissão Oficial do Bicentenário da Imigração Alemã no RS, conectando representantes de secretarias estaduais, universidades, entidades civis, empresariais e religiosas, com previsão de celebrações durante todo o ano de 2024. Quando os imigrantes chegaram aqui, em várias levas, seus encontros culturais ajudaram a forjar a população gaúcha. Hoje, cabe a todos nós preservar raízes. Sempre, a dança e a música são os fatores que preservam a cultura e a arte.