Há duas semanas os venezuelanos foram às urnas. Por meses, por meio de mecanismos
como o Acordo de Barbados, as nações vizinhas buscaram acordar com a oposição mas
principalmente com o governo a realização de eleições limpas. No domingo das eleições, os venezuelanos em todo Brasil tomaram às ruas em uma manifestação de alegria e esperança. Não foi diferente aqui na Capital da Amizade, dezenas de venezuelanos passaram o dia em nosso coração, a Praça da Bandeira. Cantavam, dançavam, alegravam o ambiente com a esperança de dias melhores. Ao mesmo tempo, carros com balões e bandeiras circulavam pela Avenida Sete de Setembro como se a mesma se chamasse Cinco de Julho, quando em 1811 foi declarada a Ata de Declaração da Independência da Venezuela.
Independência significa antes de mais nada ser protagonista do próprio destino. É compreensível que muitos dos venezuelanos que residem aqui em Erechim, se estima entre mil e três mil pessoas, quisessem retornar a sua pátria com liberdade e segurança.
Infelizmente, o cenário se revelou novamente pouco animador. Há um regime que recusa a admitir a derrota, embora as atas comprovem a mesma, que endurece e continua a perseguir opositores, que conta com o apoio dos militares locais e com 2 das 5 nações mais poderosas e com poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas. É bastante plausível que a conjuntura demonstre, mantido o regime autoritário em Caracas, um aumento no fluxo migratório para países vizinhos, como o Brasil. Diante do exposto devemos pensar como podemos ajudar? A resposta mais óbvia parece, com acolhimento, através de oportunidades e respeito.
Além da alegria expressa, trata-se de uma população bastante qualificada. Em Manaus,
2022, pesquisa da Agência da ONU para refugiados mostrou que 25 % dos imigrantes
tinham formação técnica em áreas de engenharia, administração e educação, mais da
metade tinha mais de 3 anos de experiência mas apenas 4,5% tinha emprego formal e a
renda era um terço da dos brasileiros. Não há dados semelhantes aqui, mas Erechim é uma das cidades que mais gera emprego no Rio Grande do Sul e certamente podemos
aproveitar o conhecimento de engenheiros, administradores e outros tantos profissionais
venezuelanos.
Mas acolher além de oportunizar emprego significa respeitar a dignidade, evitar comentários pejorativos, tratar imigrantes como tratamos os nossos. Nos últimos dias ouvi um comentário bastante desagradável que o aumento da imigração traria problema para os serviços públicos, que iria “ ferrar com o SUS”. Já havia escutado outros impropérios como “eles não gostam de trabalhar”. Quem comenta isso deveria lembrar que o artigo sexto da Constituição Federal diz que trabalho e saúde são direitos sociais e que o artigo anterior, o quinto determina que não há distinção de qualquer natureza entre brasileiros e estrangeiros. Mas acima de determinações legais, a moral afirma que não há qualquer distinção entre o venezuelano que vem de Caracas e Maracaibo hoje e nossos bisavós e trisavós que vieram do Vêneto ou da Renânia construir a cidade que conhecemos.
Se as causas eram diferentes, as consequências eram as mesmas, a pobreza e a necessidade de buscar sobrevivência em outro local. Hoje, ao menos, deveríamos ficar felizes que podemos ofertar a quem emigra uma legislação trabalhista mais digna do que a do século XIX e serviços que nossos antepassados gostariam de contar quando aqui chegaram como sistemas de saúde e educação públicos. A propósito, as eleições deste ano são uma ótima oportunidade de construirmos mais políticas públicas no mesmo caminho.
Toda a argumentação acima poderia ser resumida em: Nem eu , nem você, leitor, podemos
tirar o Maduro do poder, mas podemos, contagiados pela alegria expressa naquela noite na Praça da Bandeira, pensar e tratar com carinho quem nos ajuda a construir uma Capital de Amizade.