“Os acontecimentos serão recorrentes”
Certamente você já se perguntou por que eventos climáticos extremos ficaram mais fortes e frequentes. Num contexto de mudanças climáticas, como apontam os modelos feitos por cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), quando o aquecimento global ultrapassou a barreira de 1 ºC, em relação ao período pré-industrial (1850), os eventos extremos envolvendo chuvas se tornaram 30% mais frequentes e 6% mais intensos.
Para explicar como isso ocorre na prática, vamos fazer uma comparação com um jogo de dados. Vamos imaginar que um evento extremo, como chuvas muito fortes, equivale ao número 12. Para que isso aconteça no jogo, você tem uma chance em trinta e seis: os dois dados precisam cair no 6. Transportando o exemplo para a vida real, para que uma catástrofe relacionada ao clima aconteça, é preciso uma conjunção de fatores um tanto rara — nas chuvas intensas que impactaram 464 cidades gaúchas, houve a frente fria, a onda de calor, o El Niño e a seca na Amazônia.
As mudanças climáticas causadas pelo homem produzem uma forte mudança na distribuição das probabilidades dos eventos extremos. No exemplo do jogo, é como se nós tivéssemos pintado uma bolinha preta a mais em cada face dos dados. Com isso, teríamos os numerais 2, 3, 4, 5, 6 e 7. Ou seja: se antes só havia uma possibilidade de somar 12 nos dados (6+6), agora existem duas (6+6 e 5+7), ou simplesmente o dobro! E pior, essa modificação abre uma outra possibilidade: tirar os números 13 (6+7) ou 14 (7+7). Na verdade, o quádruplo.
O que equivale, na realidade, a ter eventos extraordinários ainda mais extremos e imprevisíveis, como a seca na Amazônia e as enchentes no RS. Exatamente como ocorreu no Estado e está ocorrendo no Pantanal e Amazonia. Estudos da ONS – Operador Nacional de Energia do Ministério das Minas e Energias estima que a seca na região norte do pais afetara a geração de energia pelas grandes hidrelétricas devido a escassez hídrica. E como precaução para os meses de outubro a dezembro, o operador propõe a volta da geração de energia pelas termoelétricas. Energia está de maior custo, o que afetará o bolso dos contribuintes.
A tendência é que o tempo de recorrência dessas catástrofes seja reduzido. Cheias extraordinárias ou ondas de calor fortíssimas, que aconteciam a cada 50 anos, passam a ocorrer em todas as décadas. Ou até outras inundações a cada ano. Agora ficou mais palpável entender as mudanças climáticas?
Falando em extremos, nesta semana as temperaturas em Cuiabá-MS atingiram 41,2ºC e em Porto Alegre 2º C. No Alasca 10ºC (verão no hemisfério norte).
Nosso grande problema é que esquecemos rapidamente estes problemas. A mídia passa a divulgar outras notícias, e tudo cai no esquecimento. A sociedade aguarda ações dos poderes constituídos, que são lentos, demorados, e muitas vezes deixam de acontecer pela inercia do sistema público.
Não há como negar, estamos presenciando e convivendo com as mudanças climáticas.
OBS: Colaboração do Engenheiro Florestal Marcos L. Kazmierczak, Doutor em Eventos Extremos, KAZ Tech