A alma era tema frequente em todas as aulas assistidas no colégio de freiras. Cuidava-se muito para não maculá-la e acabar nos fogaréus do inferno.
Dados mais concretos sobre o coração foram adquiridos no então, segundo grau do Colégio José Bonifácio: “ o coração e os vasos sanguíneos constituem o sistema cardiovascular... o coração bombeia o sangue para os pulmões para que eles recebam oxigênio que depois irão para o corpo...”
Cuidar da alma era algo imprescindível. Ela estava ali. Porém, um grande choque ocorreu quando ainda menina, eu soube que se abríssemos o peito para encontrá-la, não a veríamos. Ela era invisível. Como entender esse fato em tão tenra idade?
Passando o tempo, compreendemos algumas coisas, desaprendemos outras. O ler, o pesquisar nos tornam maiores, mas, nos apequenam seguidamente.
O caminhar pelas décadas da vida me fez ater-me ao coração da minha infância. Aquele coração que eu imaginava ser a sede do amor, da raiva, do medo, da esperança. O biológico não me preocupava.
Esse meu coração agora está se despedaçando aos poucos ao contemplar abismada a nossa realidade recheada de iniquidades, mentiras, falcatruas. Uma realidade onde a indignidade e a falta de valores e moral são premiadas.
A cada momento vivido, perco mais um pedacinho do meu coração. Ouvir e ver aplausos para alguns pseudo brasileiros cantar nosso hino em linguagem neutra, foi como me ver na mesa Inquisitória com o Sambenito na cabeça, rumo ao garrote vil!
Onde estás coração? Não sinto teu palpitar. Eu quisera chorar, mas não tenho mais pranto.
A alma, na qual creio ainda, do modo todo meu, me afirmava que existia um inferno
(Hoje penso, como aquele filósofo, que o inferno são os outros). Entretanto, raciocino seguidamente: quantos infernos deveriam existir para albergar tantos seres cínicos, hipócritas que fazem tanto mal a um país tão belo e gigantesco?
Em momentos de angústia e decepção chego a pensar que, talvez o mal vencerá, e na ardente moradia do Belzebu serão levados os aposentados, os professores que ousaram ser dignos, batalhadores por uma educação de qualidade, plena de ética; que tiveram a audácia de protestar com os humilhantes dez anos sem reposição salarial.
De ranger dentes quando percebem a infâmia com o desrespeito e descaso com que são tratados.
Lembrei de algo escrito por Cecília Meireles: “ Ou isso, ou aquilo”. Sim, temos que fazer uma escolha. Nossa escolha será ficarmos calados?
- Mestre História Ibero Americana – PUC – RS
- Pesquisadora da URI
- Membro da Academia Erechinense de Letras