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Opinião

O sal da Terra

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Por Marcos Vinicius Simon Leite

Durante muito tempo a ignorância travou minha humildade. Sentia vergonha em perguntar certos termos que não entendia. Mais tarde, quando surgiu o Google, já nem lembrava mais de saber. E uma dessas dúvidas sempre foi saber o que vem a ser o “sal da terra”. Esse termo, cantado em músicas, recitado em poemas e proferido em discursos históricos.

Lisboa

Estive por esses dias a caminhar no Baixo Chiado, uma região secular da velha capital portuguesa. Na saída do metrô dei de cara com Fernando Pessoa. Em verdade, sua estátua em bronze, em frente ao tradicional restaurante “A Brasileira”. Andei mais alguns passos e alcancei a Rua Anchieta, uma travessa que liga as ruas Garret e Capelo. Lugar onde os livreiros, aqui chamados de alfarrabistas, vendem suas coleções aos sábados por preços módicos. E como amante das letras, comprei meus mimos. Um deles, os Sermões do Padre António Vieira.

De Santo António aos Peixes

Bastou abrir a primeira página para ler o primeiro, escrito em 1654. Sermão de Santo António aos peixes. Lá se vão quase quatro séculos. O trecho inicial diz assim: “Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal”. Prossegue o sermão a dizer que “o efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo nela tantos que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa dessa corrupção? Ou porque o sal não salga, ou porque a terra não se deixa salgar.”

Eleições

É chegada a hora. No próximo domingo teremos eleições municipais. Momento em que o sufrágio universal definirá quem serão os “oficiais do sal”. Aqueles que terão o dever de preservar a ordem, o progresso e o bem comum. E nessas horas, abstraindo a imbecilidade, a polarização e os sentimentos mais primitivos que envolvem as escolhas dos comuns, voltamos ao tempo do Padre António Vieira. Ao lembrarmos o sermão, os mais despertos ansiam saber se é realmente o sal que não salga ou se a terra não se deixa salgar. Simplificando: será que o problema da corrupção no Brasil se dá por causa dos políticos (sal), do povo (terra) ou de ambos?

Pátria do Evangelho

A obra Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, psicografada por Chico Xavier através do espírito do poeta e político Humberto de Campos, dá conta dessa característica especial do povo brasileiro. Um país que foi berço da escravidão, da insensata exploração dos recursos naturais e da influência europeia, é também um grande desafio para o sal, conforme referiu o Padre António Vieira, ainda no Século XVII. Desde então, em constante expiação, o Brasil parece manter as duas valências negativas indicadas no sermão: Um sal que não salga e uma terra que não se deixa salgar. Até quando?

Tá na hora

E como bem disse a música homônima, de autoria de Beto Guedes, é assim que encerro. Porque não é preciso reescrever o que já foi dito. Só é preciso lembrar: “Anda! Quero te dizer nenhum segredo, falo desse chão, da nossa casa, vem que tá na hora de arrumar! Tempo! Quero viver mais duzentos anos, quero não ferir meu semelhante, nem por isso quero me ferir. Vamos precisar de todo mundo, pra banir do mundo a opressão, para construir a vida nova vamos precisar de muito amor. A felicidade mora ao lado e quem não é tolo pode ver”.

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