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Opinião

A reconquista das ideias ultrajantes

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Bruna Pilar Ferreira Leite
Por Bruna Pilar Ferreira Leite - Estudante de Ciências da Comunicação Universidade da Beira Interior – UBI

Quando ingressei no curso de Comunicação, fui incentivada pelos professores a consumir mais informação advinda de fontes tradicionais. Aquelas, um tanto esquecidas pelos nossos costumes digitais, onde nos habituamos a deslizar por feeds intermináveis de notícias fragmentadas. O jornal em formato impresso, uma relíquia que muitos consideram ultrapassada, entrou para o meu repertório semanal de leitura. E foi ali, numa sessão semanal de um sábado de manhã, que uma matéria me chocou profundamente. Algo infeliz que podemos considerar como previsível diante do clima político atual: um congresso neonazi, de nome “Reconquista”, realizado no último dia dois de novembro na Assembleia Municipal da capital portuguesa, Lisboa.

A primeira vista, soaria como absurdo o fato de que tal evento pudesse ocorrer em Portugal. Mas lá estava, estampada no jornal, a notícia relatando o encontro de uma centena de neonazis, com declarações abertas contra imigrantes, mulheres e a comunidade LGBTQIA+, além de exibirem entre si os seus mais recentes “feitos”. Um safe space para se ecoarem gritos de tempos passados e sombrios que, para tal, deveriam ter sido enterrados sob os escombros da História e, ao contrário do que gostaríamos de acreditar, ainda têm a necessidade de serem proferidos por algumas pessoas.

O evento, segundo noticiou o Jornal Expresso, foi amplamente divulgado através das redes sociais, uma ferramenta tão moderna e imersa em nossa vida cotidiana, mas que também se tornou terreno fértil para a disseminação de ideias extremistas. Entre os “cabeças-chave” do congresso, nomes que se orgulham de um currículo interessantíssimo, recheado de feitos abomináveis e visões radicais, revelando uma estratégia de promoção de um ideário que, para muitos de nós, deveria ser um registro do passado sombrio de nossa humanidade.

Mesmo perplexa e contrariada, continuei a questionar como ser possível, em pleno século XXI, em meio a um mínimo avanço, porém significativo no reconhecimento dos direitos, que ainda houvesse espaço para tais pensamentos. A pergunta que não me deixava confortável era entender como os jovens, que assim como eu dispõem da mesma liberdade para acessar informações sobre os horrores causados por essas ideologias, poderiam continuar sustentando crenças tão regressivas e destrutivas.

Durante o almoço, compartilhei a notícia em família e o debate prosseguiu. O que estranhamos não era o fato de que existam pessoas dispostas a se reunir para discutir tais ideologias, mas sim o paradoxo que gira em torno disso tudo. Como é possível, num mundo que luta por mais igualdade, liberdade e inclusão, que essas crenças ainda se mantenham vivas? Não faz sentido algum que, em pleno 2024, exista quem defenda a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens ou, que as pessoas não têm o direito de amar livremente. Não há lógica que sustente o argumento de que imigrantes não possam ter a chance de buscar legalmente uma vida melhor fora de seus países de origem, especialmente quando muitos desses “defensores” do nacionalismo esquecem que muitos deles próprios vêm de famílias de migrantes ou buscam fugir de regimes autoritários, exatamente como aqueles que pretendem apoiar.

A notícia do congresso "Reconquista" não foi apenas um choque. Foi um alerta. O fato de essas ideologias não estarem enterradas, de continuarem a ter seguidores, é um alerta de que o trabalho de conscientização nunca pode cessar. O conhecimento do passado e as suas lições devem ser usadas para construir um futuro em que essas vozes extremistas e propagadoras de ódio fiquem cada vez mais isoladas. Algo que não se faz só com legislação ou repressão. É necessário  um trabalho que promova a consciência por meio da educação, do diálogo e, acima de tudo, de empatia.

É de nossa responsabilidade não deixar que ideologias tão destrutivas ganhem espaço. O passado não deve ser apenas um arquivo a ser estudado, mas uma lição vivida a ser aplicada em nosso comportamento presente. A verdadeira “reconquista”, porém, será a de nossa capacidade em lutar contra o ódio, a intolerância e a exclusão. E isso, felizmente, não depende de um congresso. Vai além das legislaturas. Depende de cada um de nós. E se pode acontecer em Lisboa, pode ocorrer em qualquer lugar do planeta.

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