“Aves migram para as cidades”
Na década de 90 muito de falou, se discutiu, se escreveu sobre o êxodo rural que se desencadeava no RS e no Brasil. Vivenciei tal debandada na década de 1990 a 2010, principalmente dos jovens saindo do meio familiar rural para virem para as cidades em busca de oportunidades, seja de estudos e emprego. Havia um grande movimento das cooperativas, dos sindicatos rurais, inclusive da igreja para frear a saída das pessoas do meio rural. De nada adiantou, os atrativos das cidades seduziam muito mais que o da roça!
Êxodo rural
Na época, escrevi que o êxodo não era rural, mas sim sexual. Levei uma saraivada de críticas. Mas, quem conviveu com esta situação sabe que as meninas do interior migraram anteriormente aos meninos, pois o pai e a mãe as liberavam para virem estudar e/ou trabalhar na cidade. Já havia tias e primas morando nas cidades, e isto facilitava a transferência em busca de uma vida melhor. Os filhos homens deviam permanecer na propriedade para servirem de força de trabalho, já que grande parte da lida era braçal.
Entretanto, as jovens meninas nos finais de semana ou nas férias vinham para a casa dos pais no interior. E normalmente, acabavam namorando com um jovem morador de sua comunidade, município ou arredores. Contudo, chegado o momento do casamento, a jovem dava um ultimato: “só casamos se você for morar na cidade, senão nada feito”. Obvio, que havia as exceções. Eu mesmo fiz diversas enquetes na famosa Escolinha da Cotrel, onde os jovens de 18 anos acima, vinham estudar por 15 dias diversas matérias afins das atividades rurais da cooperativa. Era unânime entre as jovens, nenhuma queria ficar no interior. Simples de explicar, ao verem os afazeres e sofrimento das mães ao terem que cuidar dos filhos, das criações, da horta e pomar, e ainda muitas vezes auxiliar na roça, na igreja e comunidade, e por vezes ainda cuidarem dos seus pais, do marido ou até de filho adoentado, “jamais pretendiam voltar”. E qual o jovem que iria dizer não a sua amada! A debandada foi geral e rápida, tanto que hoje não há mais time de futebol nas comunidades interioranas, o pavilhão comunitário não funciona mais, e até colégios e igrejas fecharam.
Migração das aves para as cidades
Da mesma forma, lá pela década de 90, comecei a perceber que alguns pássaros estavam migrando para as cidades, como tico ticos, sabias, bem te vis. Passados mais alguns anos, apareceu aves outrora ariscas, como pombas juriti, quero-queros, jacus, sabia da praia, periquitos, e até pomba carijó.
E qual a razão desta migração? Provavelmente, por haver comida em abundância, clima mais ameno, e locais proteção pela inexistência de seus predadores.
Mas, o êxodo da bicharada continua, de 2020 para cá, tenho visto casais de corvos ou urubus no alto dos prédios de Erechim. Nestes locais não tem “carniça”, mas a ave encontra abriga para fazer ninhos em espaços nas coberturas dos prédios, e até na canalização de fumaça das churrasqueiras.
Recentemente, começou a apareceu um casal de curicaca nos gramados da empresa que trabalho em Passo Fundo. Trata-se de uma ave de porte, que habita áreas de campo. Seu nome é semelhante ao seu canto de sons fortes.
Possui o bico longo e curvo, em forma de foice, adaptado para extrair larvas do solo ou insetos e pequenos animais de hábito subterrâneo. Sua forma alimentar é variada, composta de centopeias, aranhas, gafanhotos, seja insetos adultos ou em forma de larvas, além de invertebrados, podendo predar lagartixas, pequenos lagartos, caramujos, sapos, rãs, e até pequenas cobras. Um verdadeiro “limpa campo e gramados”.
Estas aves se aquerenciaram entre o movimento dos caminhões, e dos funcionários que transitam pelas ruas e calçadas passam o dia perambulando pelos barrancos gramados em busca de alimentos. Já não são mais ariscas, encontraram um novo habitat e nicho de alimentação. À tardinha, vão embora, certamente em busca de um pinheiro, pois dormem em arvores.
Assim, é a vida em constante transformação e adaptação!