Nas três últimas semanas, fiz com o caro/a leitor o exercício de explorar diálogos ficcionais usando a Inteligência Artificial (dita “Generativa”): um experimento. Estabeleci a seguinte estratégia: escolher um tema – o futuro da Terra – e conceber trincas e duplas de personagens cujo encontro no “real concreto” fosse impossível, embora plausível, botando-os em diálogo. E, então, elaborar uma reflexão sobre Inteligência Artificial. O experimento envolvia a ideia de evitar “pedir” ao aplicativo que apresentasse as ideias “principais” de tal ou qual autor/autora – mas que pusesse essas ideias em uma situação de diálogo, esperando, assim, uma dinâmica mais “plástica” que algo semelhante a um verbete de dicionário filosófico, ou político.
Nas três colunas (o leitor pode recuperá-las neste jornal) entram, portanto, em diálogo, Hipácia de Alexandria, Carl Sagan, o Sr. Spock, de Jornada nas Estrelas, Immanuel Kant, Davi Kopenawa Ianomami, a Emília, do Sítio do Pica-pau Amarelo, Donna Haraway e Starhawk – a bruxa que é amiga do peito de Isabelle Stengers. Imagine uma mesa de Café em algum lugar do Cosmos, talvez próximo ao berçário estelar NGC 604, o “objeto” encontrado pelo telescópio James Webb em abril do ano passado na galáxia M33, a 3 milhões de anos-luz da Via Láctea. Legal, né? Lá, trocam ideias sobre a Terra, esse grão de areia, esse pálido ponto azul - na expressão de Sagan.
Eu só tinha tido duas experiências com um aplicativo de Inteligência Artificial: uma ajudando meu filho a fazer um trabalho de escola sobre bullying, e outra seguindo a sugestão de um aluno durante uma aula em que fazíamos uso pedagógico de uma série de tevê. Neste meu experimento, porém, e esta é a primeira impressão que quero compartilhar (não que seja uma novidade), fiquei espantado com a velocidade com que a Inteligência Artificial realizou a tarefa. Escrevi: “Crie um diálogo entre Hipácia de Alexandria, Carl Sagan e o Sr. Spock, de Jornada nas Estrelas, sobre o futuro da Terra. ” Em um segundo e (talvez) alguns décimos de segundo, o resultado estava ali. E há quem ache que o aplicativo “demorou”.
Meu interesse, contudo, estava concentrado no conteúdo daquele texto que apareceu no meu celular. E que conteúdo era esse? A Inteligência Artificial seguiu um padrão: fez uma introdução em que eram apresentados os/as personagens, onde se encontravam e o porquê de estarem ali, e, no fim, uma conclusão. Uma redaçãozinha de Enem. A seguir, montou um diálogo em que esses personagens se alternavam, sempre na ordem que eu botei no enunciado. Na “fala” de cada um, pode-se encontrar suas ideias mais comumente conhecidas – pouco mais que isso. Hipácia faz um elogio da ciência e menciona o mal que representa a intolerância religiosa. Carl Sagan traz a ideia de que a exploração do Cosmos não deve significar uma fuga de nossos problemas na e com a Terra. E o Sr. Spock, o lógico vulcano, lembra da necessidade de unirmos razão e emoção em nossos esforços de preservação da vida na Terra.
O segundo diálogo se deu entre figuras de cosmovisões, cosmo-percepções essencialmente diferentes: Immanuel Kant trouxe seu imperativo categórico e Davi Kopenawa a necessidade de escutarmos a floresta e as vozes ancestrais. Talvez em razão de meu enunciado, chegaram a uma “síntese”, o que é um tanto ingênuo. Mas... No terceiro, temos a Emília, a boneca de plano de Monteiro Lobato, numa participação que lembra seu papel em “A reforma da natureza” (1939), o que faz bastante sentido. Donna Haraway “fica com o problema” e traz ideias de redes de cuidado e de responsabilidade para com a Terra e as espécies companheiras. E Starhawk, uma hippie contemporânea, rituais mágicos de cura e de reconexão com a natureza, enfatizando a importância da formação de círculos permanentes de diálogo em pequenas comunidades.
Bem: o que faltou nesses diálogos? Faltou autoria, singularidade, aquilo que nos define como humanos. Subjetividade, imaginação. Faltou o toque único, o dedo de um autor/a. Brilho. Os textos feitos pela Inteligência Artificial – mesmo quando eu pedi algum aprofundamento dos diálogos – são basicamente (e mais ou menos) corretos, mas frios e relativamente rasos. Em minha experiência, o inesperado – o elemento de encanto próprio da literatura e do bom texto – não veio. E fez falta. Uma falta gritante, um grito como o da criatura de Frankenstein.