Acordei com o barulho de panelas caindo no apartamento de cima. Não era a primeira vez. Na verdade, parecia que os vizinhos do 302 tinham um talento especial para transformar qualquer coisa em um evento digno de uma trilha sonora de filmes de ação.
— Não acredito que você comprou isso de novo! — gritou uma voz feminina.
— E eu não acredito que você ainda insiste em usar aquele secador barulhento! — respondeu uma voz masculina.
Era a terceira briga da semana. Eu não queria me envolver, mas, como todos os outros vizinhos, acabei sendo uma testemunha do relacionamento tumultuado deles. Cada discussão parecia uma novela com direito a picos dramáticos e reviravoltas inesperadas. Ontem, por exemplo, a razão do conflito foi um pote de sorvete. Hoje, aparentemente, o culpado era a torradeira nova.
Enquanto os dois discutiam, comecei a imaginar como seria o ponto de vista do vizinho do 202, que provavelmente escutava tudo de baixo para cima, como um eco mal equalizado. Ou da vizinha do 301, que, mesmo com seus 70 anos e uma audição não tão aguçada, parecia sempre saber de cada detalhe.
Há alguns meses, os moradores do prédio tentaram intervir. Foi organizada uma reunião de condomínio para tratar do "casal do 302". A senhora do 301 trouxe bolachas e um caderninho de anotações com todas as vezes que ouviu alguma discussão – ela tinha registros datados e, surpreendentemente, ilustrados. Já o vizinho do 403 sugeriu que eles participassem de uma terapia de casal. Nada disso deu certo.
A briga dessa manhã parecia mais intensa do que o normal. Resolvi fazer algo que nunca havia tentado: tocar a campainha do 302. Depois de alguns segundos de silêncio, a porta se abriu. Era a vizinha, com uma expressão surpresa, mas não irritada. O marido dela surgiu logo atrás, com um ar de curiosidade.
— Ah, oi. Tudo bem? — ela perguntou, ajeitando o cabelo.
— Oi. Bom...Eu moro no 402 e...bem, estava ouvindo vocês discutirem. Vocês estão bem? Preciso dizer que o som atravessa as paredes.
Eles se entreolharam. Por um momento, parecia que eu tinha acabado de trazer uma revelação chocante. Então, para minha surpresa, ambos riram. Mas não uma risada forçada ou irônica; era uma risada sincera.
— Ai, desculpa, vizinho. A gente tem esse jeito meio intenso de conversar. Mas, olha, é sempre por besteira. A gente é assim, mas se ama, viu? — ela disse, com um sorriso.
— Sim, é verdade. Eu sei que parece que estamos em guerra, mas, no fim, é sempre sobre alguma coisa idiota. Hoje foi a torradeira — completou ele, com um tom quase de desculpas.
— Bom, se vocês estão bem, tudo bem. Só... talvez tentar baixar o volume? Nem todo mundo aqui é tão apaixonado por novelas quanto vocês — respondi, meio brincando.
Eles riram novamente e prometeram tentar ser mais discretos. Naquele dia, ao menos, o prédio ficou em paz. Até a próxima briga, claro. Porque, no fundo, o 302 era mais do que um apartamento barulhento; era o palco de uma relação cheia de altos, baixos e, por mais incrível que pareça, amor.