A questão do estigma relacionado à saúde mental é uma realidade que, infelizmente, ainda persiste na sociedade contemporânea. O medo de ser rotulado e julgado leva muitas pessoas a evitarem procurar ajuda profissional, mesmo quando enfrentam transtornos como a depressão, ansiedade, bipolaridade ou esquizofrenia.
O histórico do estigma
A psicóloga Juliana Jaboinski, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e professora de Psicologia na URI, afirma que o estigma da saúde mental tem raízes profundas e históricas. Inicialmente, os tratamentos psiquiátricos e psicológicos eram direcionados apenas a casos graves, como as síndromes psicóticas, incluindo a esquizofrenia. Naquela época, o tratamento de pessoas com doenças mentais graves era associado a imagens de isolamento e contenção, como o uso de camisas de força, perpetuando o conceito de "louco" na sociedade.
Com o tempo, a psiquiatria e a psicologia evoluíram e passaram a atender não apenas aqueles com transtornos graves, mas também pessoas que buscam autoconhecimento e uma vida mais equilibrada, sem necessariamente ter um diagnóstico clínico. Essa mudança, embora significativa, ainda não foi suficiente para erradicar o estigma social.
A persistência do estigma
Juliana observa que, especialmente entre as gerações mais velhas ou aqueles com experiência pessoal ou familiar com casos mais extremos, a associação de tratamentos psicológicos com doenças graves ainda é muito forte. "Muitas pessoas ainda acreditam que a psicoterapia é coisa de quem 'está louco'. Isso reflete uma visão errônea e preconceituosa", ressalta.
No entanto, ela acredita que a sociedade está, aos poucos, rompendo essas barreiras. O aumento da visibilidade da psicoterapia e a percepção de que a saúde mental é parte fundamental do bem-estar estão ajudando a suavizar esse estigma. "Estamos avançando, e a psicoterapia está mais acessível e visível, o que tem contribuído para a diminuição dos estigmas", afirma.
Superando o estigma
Juliana acredita que a mídia e o apoio familiar são fundamentais para combater o estigma. “Quando alguém, especialmente um familiar, sugere que uma pessoa procure ajuda, o impacto pode ser significativo. Trazer a pessoa junto para o consultório pode ser o primeiro passo para que ela se sinta mais confortável em buscar tratamento", explica.
Além disso, a psicóloga destaca a importância de uma abordagem holística da saúde mental. Ela acredita que, para reduzir o estigma, é necessário olhar para o problema de forma ampla, considerando fatores como apoio social, compreensão familiar e políticas públicas eficazes. "A saúde mental precisa ser tratada de forma integral, levando em consideração não apenas o indivíduo, mas também o contexto social e familiar em que ele está inserido", afirma Juliana.
A psicóloga também observa que muitas pessoas, especialmente as mais velhas, ainda relutam em buscar ajuda devido à cultura de que "não se deve falar sobre problemas emocionais". Além disso, ela ressalta que, mesmo diante do estigma, é possível criar alternativas de tratamentos mais acessíveis, respeitando as necessidades e limitações do paciente. Isso é especialmente importante para o público mais velho, que pode apresentar limitações cognitivas associadas a problemas de saúde mental, como a depressão.
Desmistificando os transtornos mentais
Juliana observa que transtornos como depressão e ansiedade têm sido mais discutidos na sociedade, principalmente em decorrência do aumento das taxas de ansiedade no Brasil. “O Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo, e a ansiedade tem se tornado um tema cada vez mais presente nas discussões sobre saúde mental", afirma. No entanto, ela alerta para o risco da normalização excessiva de sintomas como ansiedade, que muitas vezes são considerados parte do estilo de vida moderno.
Ela explica que a sobrecarga de atividades e a pressão social para ser produtivo contribuem diretamente para o aumento da ansiedade. "Hoje, há uma aceitação social da sobrecarga e da correria. As pessoas acreditam que precisam estar ocupadas o tempo todo para serem bem-sucedidas", afirma Juliana. Ela sugere que é preciso desacelerar e entender os próprios limites para alcançar uma vida mais equilibrada.
Banalização dos diagnósticos
Juliana também critica a banalização de diagnósticos como TDAH e ansiedade, que têm sido usados como justificativa para comportamentos que não necessariamente indicam um transtorno. "Hoje, é muito comum ouvir pessoas dizendo que têm TDAH ou que são ansiosas, sem sequer ter um diagnóstico formal. Isso contribui para a banalização desses transtornos e prejudica aqueles que realmente sofrem com esses problemas", alerta.
Ela destaca que a sociedade tem se acostumado a rotular comportamentos que podem ser apenas uma diferença de funcionamento, e não um transtorno real. A questão do diagnóstico deve ser sempre tratada com seriedade, e qualquer diagnóstico deve ser feito por um profissional qualificado.
Caminhos para o futuro
O caminho para superar o estigma sobre a saúde mental é longo, mas a conscientização tem avançado. A psicóloga acredita que, ao promover a aceitação da psicoterapia como uma ferramenta de autoconhecimento e de cura emocional, é possível reduzir as barreiras que ainda existem para a busca de tratamento.