Como professora de História e apaixonada pela pesquisa sei aquilatar o valor insubstituível de uma biblioteca com seus tesouros: os livros.
Nunca aceitei, sem revoltar-me, grandes eventos que destruíram bibliotecas. Enamorei-me com a de Alexandria fundada por Ptolomeu I (360 AC - 283) sucessor de Alexandre, o Grande. Dados apontam que Júlio César, em 48 ao atacar a cidade, mandou incendiar a preciosa biblioteca. Outro grande dano foi provocado pelo Imperador Caracala em 215. Novo e irreparável dano ocorreu com o terremoto que em 365 arrasou Alexandria, fez com que fossem salvos 40.000 rolos, rapidamente levados ao Templo de Serapis. Deles provém tudo o que sabemos da época ptolomaica e outras.
Muito dessa sabedoria foi destruída quando o Cristianismo se tornou Religião oficial do Império Romano. O que não era cristão era considerado herege e punido.
Como valorizadora do PATRIMÔNIO, e dos MUSEUS, coloquei Ptolomeu I em minha linha de interesses, por ter sido ele a fundar o primeiro Museu da História, em homenagem às Musas.
Fantástico dano à sabedoria e progresso foi causado por Isabel e Fernando na sua luta pela expulsão dos árabes (mouros – sarracenos – moçárabes) e judeus da Península Ibérica, em especial da atual Espanha. Na fé cega de ambos, muito da conquista humana foi jogada no ostracismo, esquecida ou proibida.
Mais próximo de nós houve a monstruosa queima de livros provocada e incentivada pelo malévolo mor chamado Hitler.
Analisando essas tentativas de apagar a caminhada de tantas mentes brilhantes, comecei a ler um livro de RAY BRADBURY “Fahrenheit 451”. O instigante livro me foi emprestado, assim como muitos outros, por um estimado amigo, intelectual generoso, com vasto cabedal literário, o Dr. Luis de Lucca. Tenho a sorte de possuir dois iluminados amigos que me alcançam obras que, como chaves mágicas, abrem minha mente e preenchem as lacunas de minha ignorância intelectual.
Um deles, o Dr. de Lucca, além do empréstimo, me desafia com seus conhecimentos e me obriga a garimpar dados.
A obra de Bradbury (o livro, não o filme) me fez comparar nosso mundo atual, com a supremacia da internet, com a escravidão do celular. Com a ausência dos encontros fraternos. Com a solidão que nos envolve. Com a dor em nossa coluna durante as horas passadas em fascinados olhos na tela, acreditando ou pouco questionando o que ouve, vê ou lê.
Há livros que nos causam indignação (alguns) com sua pouca ou nenhuma qualidade, abordando temas absurdos e que para nossa angustia, até recebem prêmios.
Declaro que a ficção, como é classificado o livro de Bradbury, sempre me amedrontou um pouco. Mas fui percebendo que na maioria das ocasiões, ela me conduzia a curiosidade e a saudável e aclaradora realidade.
Os bombeiros citados no livro queimavam bibliotecas, e todo e qualquer livro, criando uma realidade favorável à um grupo eliminando assim o livre pensar, o livre agir.
O que nos diz a queima de livros? Na nossa realidade, podemos comprar bons livros? Como estamos semeando, e alimentando nossa mente?
Bradbury afirma com convicção “ Ficção científica é uma ótima maneira de fingir que você está falando do futuro, quando na realidade, está atacando o passado recente e o presente”.
A importância e necessidade de bons livros é saudável e inconteste. Aproximá-los dos jovens e crianças trará uma colheita saborosa. Livros maus existem. O fundamental é saber escolhê-los e ser livre para tal.
Quando o desencanto me envolve eu me pergunto: Ray Bradbury com seu “ Fahrenheit 451”, não teria desenhado um futuro, e como que, inspirado esse presente que vivenciamos? Esse presente onde há claro descaso com a educação, desrespeito desumano com os professores? Leitura e amigos? Não. Celular sim? Patrimônio preservado? Bom e correto português?
A esperança, teimosa, é que os bombeiros continuem a apagar incêndios, e os livros e nossa mente livre, recebam lugar de honra no panteão humano.