Nesta coluna, faço reverência àquelas com quem compartilho os passos do meu caminho. Estas mulheres me deram vida e fazem a minha existência melhor, começo por minhas avós, paterna, Elisa, e materna, Leonida (as duas em memória), a mãe, Lucila, esposa, Ana, irmã, Carina, enteadas Gabriela e Rafaela, as sobrinhas Maria, Laura e Eduarda. Todas elas são importantes, cada uma do seu jeito, são pessoas que fazem a diferença pra mim.
Em especial, para ilustrar e sintetizar tudo isso, falo sobre minha vó Elisa, as ações desta grande mulher me marcaram significativamente, diria até que esculpiram parte da minha personalidade e de quem sou. Elisa estava sempre disposta a fazer a vida melhor e ajudar as pessoas, não importando a situação, se de dia ou nas altas horas da madrugada. Se alguém batesse à sua porta, na rua Uruguai 72, ela atenderia.
O tempo que eu convivi com minha vó, sempre foi bom, ela já estava aposentada do trabalho externo, colhíamos radite na horta ou pepino e alguma fruta para o suco do meio-dia. Ver ela cozinhar, enquanto conversávamos ou ouvindo o rádio ligado, desde manhã cedo, era uma aula à parte, era pura maestria, reaproveitando alimentos já cozidos, acrescentando ingredientes e transformando tudo em algo novo e melhor. E o detalhe, sem nenhum desperdício, fazendo muito com pouco.
E se chegasse na hora do almoço – a vó morava no centro - a porta ficava quase na rua e estava sempre destravada, às vezes, dava preguiça de ir a pé até em casa depois da escola, aí, a casa dela era parada certa e o almoço também. Um deles, o melhor almoço, pela simplicidade e sabor refinado, era carne de panela, massa na manteiga temperada com farinha de rosca, salada de radite com bacon e cebola, não tinha nada melhor. O pão novinho, assado de manhã cedo, era outro item de dar água na boca.
Depois do almoço, ela lavava a louça, lia um pouco de jornal no sofá, tirava um cochilo até a próxima visita chegar - e sempre tinha alguém. Rapidamente, levantava e fazia a próxima térmica de café, as pessoas se sentavam ao redor da mesa, bolachas de polvilho à mão, feitas por ela, e muita conversa. Aquilo momento era visceral, vívido, terapêutico, filosófico. A vó Elisa, era católica, mas tinha também uma veia crítica, cética e irônica.
No tempo ruim, mesmo diante dos maiores problemas, e nunca foi fácil, quando a vida lhe impunha muito peso, envergando as suas pequeninas pernas, ela arrumava forças para se reerguer e seguir nem frente. Os problemas sempre eram resolvidos de um jeito ou de outro.
Minha vó não era perfeita, tinha sim os seus defeitos, como qualquer ser humano os tem, mas no propósito geral de sua existência fez a vida acontecer do seu jeito. Ela dedicou a sua existência à construção da família, abdicando muitas vezes de si mesmo para atender aos outros, o que me levou, anos depois, a pensar sobre aquela condição, em que havia sim um grande senso de responsabilidade, mas tinha, também, muito mais amor. A minha conclusão foi que ela era movida por este amálgama de amor e responsabilidade, sempre coordenando tudo.
A vida poderia ter sido mais fácil, melhor, para minha vó? É difícil dizer. Acho que ela viveu, plenamente, a vida que ela construiu e que foi protagonista. Certo é que quando há comprometimento, responsabilidade e dedicação, não há muita leveza e sossego. A luta é diária. Ela foi esposa, mãe, dona de casa e de pensão, funcionária pública, vó e bisavó. Elisa foi muitas, sempre presente, e fez a diferença na vida de muitas pessoas. A ti vó, mulher, esta singela homenagem.
Jornal Bom Dia
O Jornal Bom Dia traz nesta edição de fim de semana dois belíssimos cadernos em homenagem às mulheres pelo Dia Internacional da Mulher, neste 8 de março. Há anos, este veículo de imprensa regional se dedica a divulgar matérias sobre o valor humano, histórico, social e econômico da mulher.