Erechim se prepara para sediar, de 12 a 14 de março, a segunda edição da Jornada Médica Internacional. O evento, que já se consagra como uma referência para o setor da saúde, traz à tona, no entanto, uma história pouco explorada que molda a região até os dias de hoje: a trajetória da colônia judaica de Quatro Irmãos. Este polo de turismo, idealizado há cerca de dois anos, é fruto do desejo de preservar a memória de uma comunidade que transformou Erechim e sua região, deixando um legado de inovação e resiliência.
Colônia judaica em Quatro Irmãos
A história começa com a criação da Fazenda Quatro Irmãos, onde cerca de 1.500 famílias judias se estabeleceram. No princípio, de acordo com o jornalista Sérgio Lerrer, que é secretário executivo do Polo de Turismo Judaico de Quatro Irmãos, e um dos organizadores da Jornada Médica Internacional de Erechim, a colônia foi uma incubadora de famílias que, em busca de melhores condições de vida, fugiram das dificuldades impostas pelo nazismo, onde as minorias judaicas não tinham acesso à educação ou aos direitos básicos, como a propriedade de terras.
Na Fazenda Quatro Irmãos, o objetivo era garantir um futuro melhor para as gerações seguintes. “Além de fundar escolas e clínicas, os judeus buscaram melhorar as condições de vida ao implementar, por exemplo, uma cooperativa elétrica que iluminava toda a região, uma verdadeira inovação para a época”, coloca. Eles também fundaram o Hospital Leonardo Cohen, um marco da saúde, considerado o primeiro hospital rural com arquitetura pensada para a prevenção de infecções, um legado que atravessou décadas.
Legado da comunidade judaica para a região
O trabalho dessa comunidade não se limitou a se organizar internamente. Como sempre aconteceu com o povo judeu ao longo da história, a adaptação ao novo espaço exigiu um esforço de resiliência e empreendedorismo. Foi aqui que, no campo, surgiram grandes empreendedores que, mais tarde, se espalharam pelo Brasil, fundando empresas e criando novas oportunidades de emprego. “Entre os descendentes dessa colônia, há uma grande quantidade de médicos e profissionais de saúde, o que reforça o vínculo entre o povo judeu e o cuidado com a saúde, algo que remonta à tradição religiosa judaica que sempre se preocupou com práticas de higiene e bem-estar”, lembra Sérgio.
Jornada Médica Internacional
A conexão entre a Jornada Médica Internacional e a colônia judaica não é mera coincidência. O evento tem, inclusive, como uma de suas inspirações a história do Hospital Leonardo Cohen, que foi fundado com o apoio de médicos judeus. Este hospital pioneiro foi, por muitos anos, o principal centro de atendimento médico da região e sua memória, hoje recuperada por meio do Polo de Turismo Judaico, é celebrada como parte da jornada.
Durante a jornada deste ano, o foco será, em grande parte, na saúde pública. No dia 12 de março, um evento especial discutirá o "Desafio da Saúde Pública Eficiente", com a presença de especialistas e gestores de saúde de todo o Brasil. “O objetivo é debater a sustentabilidade e os desafios da saúde pública, além de integrar o conhecimento do setor privado e público para melhorar o atendimento à população”, frisa.
A presença de especialistas como o doutor Marcelo Averbach, um dos maiores cirurgiões de cólon do Brasil, e a participação de médicos de renome internacional, como os representantes do Hospital Sírio-Libanês, reforça o caráter internacional do evento, que busca conectar médicos, gestores e líderes do setor para fomentar o intercâmbio de conhecimento e práticas inovadoras.