Os juros elevadíssimos vêm comendo os rins das famílias, empresas, destruindo a economia brasileira há décadas. Todo o país é afetado com esta decisão de manter estes patamares improdutivos, pois impede, efetivamente, a ampliação da produção industrial, distribuição e o consumo de bens e serviços. Nada escapa desta política suicida, inclusive, os orçamentos dos municípios brasileiros, onde a vida acontece.
Sigo, aqui, o ponto de vista da auditora-fiscal aposentada da Receita Federal, Maria Lucia Fattorelli, fundadora da entidade Auditoria Cidadã da Dívida (ACD), e uma das poucas vozes a alertar para os efeitos nocivos, destrutivos, e criminosos dos juros elevados.
Esta entidade produz vasto conhecimento técnico, com explicações, gráficos, estudos científicos, jurídicos, que não encontram recepção nenhuma na política brasileira, que poderia questionar e trazer este assunto à tona, já que envolve trilhões de motivos, contudo, é assunto morto, jogo jogado.
É impressionante como, efetivamente, as informações que eles produzem são ignoradas, quando não sofrem ataques para desqualifica-las. Enfim, a entidade produz conhecimento genuíno, que poderia mudar a vida de milhões de brasileiros e o curso do país, mas é deixado de lado, simplesmente, por quem decide os rumos do país há pelo menos 20 anos.
De outro lado, os principais prejudicados também não dispensam muita atenção para esta lógica insana, porque antes de tudo é preciso sobreviver, e a vida é pagar boletos, nada pode ser mais belo. Há fila de desafios, diários, começando com o rendimento, que é insuficiente para pagar as contas, os problemas de saúde, que não encontram mais planos a sua altura, e os juros embutidos em tudo, mais um entre tantos outros reveses no cardápio diário da brasilidade. Certo é que fazer financiamento no Brasil é como decretar a própria morte financeira.
A desindustrialização é um dos efeitos dos juros em patamares muito elevados, afirma a auditora fiscal. “Quando o juro é favorável, a economia é irrigada de moeda e se entra na espiral positiva, em que o dinheiro vai circulando, gerando empregos e renda, a indústria cresce e tudo vai avançando positivamente”.
Quanto mais juros, mais dívida pública e, consequentemente, menos investimentos em infraestrutura, educação, energia, habitação, saúde, e mais concentração de dinheiro em quem detém os títulos desta dívida. A cada 1% de aumento na taxa Selic há acréscimo de R$ 55 bilhões em dívida pública, afirma a auditora fiscal.
Do orçamento federal executado, em 2024, somente 2,95% foram para educação, 4,16% para a saúde, 2,34% para o trabalho, 1,80% para defesa nacional, 0,3% para gestão ambiental. As transferências aos estados e municípios se limitaram a apenas 11,07% do orçamento. A Previdência Social utilizou 21,6% do orçamento, aquele dinheirinho que sustenta milhões de famílias. Por fim, 42,96% foram destinados para pagar os juros e amortização da dívida. Não é preciso ser economista para entender que mais juros geram mais dívidas. O brasileiro sabe disso, muito bem, no couro. Mas os juros continuam altos décadas após décadas.
O orçamento federal mostra em números a realidade, não os discursos, um país inteiro trabalha e produz riqueza e é privado de investimentos, que trariam bem-estar e mais desenvolvimento econômico, por ser obrigado a pagar juros fabricados, irresponsavelmente, por sucessivos governos. O brasileiro está longe de ser prioridade e não importa a bandeira política, porque isso ocorre há décadas.