O ser humano sempre vai estar no centro de tudo, qualquer assunto, discussão, que envolva questões sociais, econômicas, culturais e ambientais, porque ele é a fonte dos problemas e, também, o caminho para solução. Não dá para perder isso de vista, mesmo nos adias atuais em que a tecnologia revolucionou a vida em sociedade, para o bem ou para o mal, porque, como qualquer ferramenta já utilizada pelo ser humano, a aplicação dela também vai estar sujeita ao fator humano e sua formação cultural, não importa qual seja. A tecnologia encerra também em si hierarquia econômica, valores morais e, também, controle social.
Tudo que envolver as sociedades humanas é composto de ingredientes ambientais, econômicos e culturais. As pessoas fazem guerras por comida, recursos naturais, territórios, poder, despeito, dinheiro, e por muitas outras motivações, mas todas estão ligadas às necessidades das pessoas.
A tecnologia está sendo apresentada, nos dias de hoje, com excessiva visibilidade, eu diria, em todas as áreas, como se fosse resolver todos os problemas humanos, pelo simples fato de se estar com algo tecnológico seria suficiente. Mas não é bem assim, porque há ainda muitas necessidades humanas, básicas, orgânicas, psíquicas, insatisfeitas por aí. A tecnologia é somente uma parte do todo e não engloba a plenitude do ser e das sociedades, todas as nuances, materiais e imateriais da existência humana em grupo.
Cabe aqui uma pequena digressão e observação, antes que alguém da primeira fila aponte o dedo em riste, olhos cerrados, cenho franzido, boca fisgada e saliva tóxica, não sou contra os avanços tecnológicos. Pelo contrário, sou totalmente favorável, por exemplo, às vacinas, que salvam vidas e aumentam os nossos dias na Terra, mas precisam estar no corpo humano para fazer efeito.
Os avanços científicos na área da saúde, transporte, comunicação, cultura, com a impressão e produção de livros e jornais, compartilhados digitalmente em âmbito mundial, democratizaram o acesso à informação, mas, ainda, há muito que se fazer para que de fato as pessoas possam curtir uma existência cultural. A tecnologia melhorou a produção e os alimentos, com melhoria genética, associando técnicas que preservam e renovam os recursos naturais, mas a fome ainda reina no mundo.
A tecnologia está em tudo e se multiplicando a passos largos, desbancando-se a si mesma, a níveis inimagináveis. Mas o ser humano continua aí, incompleto, com fome, quase uma pedra no caminho.
É mais fácil lidar com a tecnologia, em termos, pois ela também tem seus efeitos colaterais, e os principais, são justamente nas pessoas. Tecnologia é também um produto que precisa ser consumido, mas por quem? Por outras tecnologias, máquinas? Não. Quem consome tecnologia são pessoas, sem elas se perde todo o seu sentido existencial e finalidade. Para ter consumo é preciso ter alguém capaz de consumir, em condições psíquicas, emocionais e econômicas.
Assim como a máquina e a tecnologia, o ser humano requer investimentos, a tecnologia por si só não se multiplica. Ela só cresce e se desenvolve pelas mãos e mentes de pessoas, alimentadas, com saúde, com um lugar para morar e trabalhar, com acesso ao conhecimento científico. A tecnologia só vem ao mundo depois que um ser humano coloca em prática as suas capacidades de sentir e pensar.
Não dá pra substituir o ser humano, ele está aí e não vai deixar de estar.