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Opinião

O desafio da paternidade ativa além da presença

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Por muito tempo, o pai era responsável por suprir apenas a parte financeira. Era comum e, socialmente aceito, que o pai estivesse ausente emocional e fisicamente, contanto que cumprisse com suas obrigações materiais. E isso se reflete até hoje, inclusive na legislação, que obriga o pagamento de pensão, sob pena de prisão, mas não prende um pai pela falta de afeto, presença ou participação ativa na vida dos filhos. É importante deixar claro que não sou contra a pensão alimentícia, ao contrário, considero fundamental. Mas não é só disso que uma criança precisa.

Esse modelo ultrapassado de paternidade ainda está profundamente enraizado na sociedade, porém, mesmo que pequenas, já conseguimos ver algumas mudanças. Temos um grupo de homens que decidiu se reinventar e desconstruir esse tipo de paternidade e, eu tento me incluir neste grupo, tanto na prática do dia-a-dia, tanto falando sobre esse assunto que vejo como extremamente necessário aqui, todas as terças-feiras.

A falta ainda é tanta que o simples fato de ter um pai por perto já é motivo de elogio e de elevá-lo a um patamar inexistente: o de superpai. Estar presente é importante, claro. Mas só isso não basta. A grande questão está em se tornar um pai ativo.

E ser um pai ativo vai muito além de trocar uma fralda ou buscar o filho na escola de vez em quando. Vai além de brincar por dois minutos ou comparecer a uma reunião escolar. A paternidade ativa exige envolvimento real, constante, afetivo e consciente. É saber o nome da professora, lembrar o dia da vacina, participar das decisões sobre a escola, alimentação e rotina. É preparar o lanche, contar histórias, lidar com birras, colocar para dormir. E tudo isso não como favor, mas como responsabilidade natural e inegociável.

O pai que é apenas “presente”, acaba assumindo um papel superficial e um tanto quanto cômodo. Está fisicamente em casa, aparece nos aniversários e eventos, mas se mantém distante das decisões e da vida cotidiana da criança. A simples presença pode parecer suficiente, mas criar um filho exige mais do que observação, exige ação.

Essa diferença entre um pai presente e um pai ativo é sutil, mas tem uma implicação substancial. É como a diferença entre olhar e ver, ouvir e escutar, estar e cuidar. Por isso essa mudança é urgente e não apenas para desafogar a maternidade, mas também a paternidade que está afogada em conceitos antiquados, que não cabem mais. Para trazer esses homens a superfície, faze-los respirar, faze-los ver, escutar, cuidar. Fazê-los viver esse momento plenamente.

A paternidade ativa confronta, diariamente, o modelo de masculinidade que ainda vincula o cuidado afetivo com os filhos exclusivamente às mães. Ao assumir esse papel de forma verdadeira, o homem se reconecta com sua sensibilidade, empatia e vulnerabilidade. Ele aprende, erra, evolui e, nesse processo, se torna um exemplo muito mais poderoso do que meia dúzia de palavras.

É fácil? Não. A nossa referência é de um pai educado para suprir apenas as necessidades financeiras e esse modelo tradicional ainda pesa. Mas é possível e, necessário, romper com isso. O envolvimento paterno impacta diretamente no bem-estar emocional das crianças, fortalece os vínculos familiares e, de quebra, alivia a carga que recai historicamente sobre as mães.

Se você é pai, repense todos os dias o tipo de paternidade que está exercendo. Se ainda não é pai, mas pretende ser, reflita desde já sobre o pai que deseja se tornar.

No fim das contas, ser pai ativo é construir, todos os dias, um legado de afeto, compromisso e humanidade. E isso é o que faz da paternidade uma experiência transformadora, tanto para os filhos, quanto para os pais e afetará positivamente em uma possível paternidade futura. E quem sabe dessa forma, cada vez mais crianças, terão além do nome do pai na certidão, o pai ativo no dia a dia e presente nas melhores memórias.

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