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Opinião

Está tudo certo como está?

O que fica evidente, a cada dia, é que não interessa se o governo é de esquerda ou direita, o brasileiro não tem com quem contar. Por que a classe política não usa a sua astúcia e perspicácia para defender e colocar em prática projetos estruturais que beneficiem as pessoas e o desenvolvimento do país? É comum ouvir que a população é prioridade número um, mas isso é muito questionável, porque se realmente fosse, na prática, viver-se-ia num lugar muito melhor.

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Este gráfico mostra pra onde vai o dinheiro do Brasil a cada ano
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Divulgação

O que, afinal, é prioridade neste país? Existe alguma coisa, além de se manter os juros elevados, abusivos, que dia após dia acabam com os recursos e a economia do país? A realidade do Brasil é um nó-górdio, com todos os seus efeitos prejudiciais e destrutivos, com muitos problemas estruturais que, ano após ano, permanecem sem resolução, em todas as áreas, saúde, educação, segurança pública, infraestrutura, lazer. Enfim, falta o básico para se viver, minimamente, com alguma dignidade. O Estado brasileiro não é capaz de oferecer o mínimo à população.

E não se trata de estabelecer o quão problemático é a coisa, porque ela é, e qualquer pessoa que vive neste mundo chamado Brasil sabe de cor e salteado o tanto de entraves que o país impõe às pessoas. Os problemas perpassam todas as esferas sociais, do trabalhador ao empresário, ninguém escapa, contudo, quem tem menos sofre mais.

Veja o caso dos moradores de algumas regiões, em Porto Alegre, que há anos lutam contra alagamentos, porque a prefeitura não faz o que precisa ser feito, tudo isso, depois das enchentes de 2024, que destruíram vidas e comunidades. A prefeitura não conseguiu juntar pedra e terra pra construir um dique, que deveria estar pronto há décadas e traria alguma segurança para aquelas pessoas. É muita omissão e indiferença e o exemplo é válido, não importa o local.

O que fica evidente, a cada dia, é que não interessa se o governo é de esquerda ou direita, o brasileiro não tem com quem contar. Por que a classe política não usa a sua astúcia e perspicácia para defender e colocar em prática projetos estruturais que beneficiem as pessoas e o desenvolvimento do país? É comum ouvir que a população é prioridade número um, mas isso é muito questionável, porque se realmente fosse, na prática, viver-se-ia num lugar muito melhor.

O governo estadual fez os acessos asfálticos que faltavam na região Alto Uruguai e ainda está fazendo, que ficaram décadas sendo negligenciados. Agora, o projeto de privatização da ERS 135 entre Passo Fundo e Erechim não é a mesma coisa, ele entra na categoria de peso morto, sobrecarga, mais conta para pagar. Se o projeto contemplasse a duplicação das estradas do interior do estado até a capital, cruzando o RS de ponta a ponta, oeste-leste, norte a sul, vá lá, seria algo a se pensar e defender, porque se estaria falando de investimentos estruturais em logística, que atacam o problema como um todo, envolvendo turismo, desenvolvimento econômico e humano, obras que mudariam a vida e a logística do estado.

Na esfera federal, a lenga-lenga, ladainha, é a mesma há décadas. O asfaltamento da Transbrasiliana poderia suprir a necessidade regional, mas não sai do papel, são 68 quilômetros de asfalto que redesenhariam a logística e a economia do norte do Rio Grande do Sul, mas nada, efetivamente, nada acontece. É uma obra importante para o país, para as empresas, as famílias, agricultura, comércio, indústria, por si só isso seria suficiente. Quais argumentos mais precisam para justificar a sua realização? Tudo isso não importa, porque no fundo, o Brasil não foi feito para os brasileiros.

A sociedade brasileira foi distanciada da própria realidade e isso se tornou regra. O pior é que se usa a inteligência nacional para criar abismos e falsificar os significados. Um exemplo desta enganação, vendida diariamente para a população, se dá com relação aos gastos públicos.

O país tem que parar de gastar para ajustar as contas públicas, senão vai quebrar e blá blá blá. Tudo faz acreditar que são os investimentos em saúde, educação, estradas, Previdência, os serviços públicos, que estão arruinando o país. Mas isso é extremamente manipulador e falacioso, mentiroso, porque se assim fosse, a Transbrasiliana estaria asfaltada, a saúde se encontraria noutro patamar, não dependendo de suporte financeiro todos os meses dos municípios. O rendimento do trabalhador seria outro, maior, ele teria mais poder aquisitivo. O discurso não fecha com a realidade, isso é falsificar o significado.

Essa ladainha é repetida, exaustivamente, num conteúdo muito bem elaborado que faz pensar que os gastos públicos estão acabando com o país, só que nunca se fala quais são os gastos públicos. As palavras-chave marteladas sem parar são: gastos públicos. Numa contínua lavagem cerebral. Na sequência vem a justificativa dos juros altos. É isso que o país merece! É tanta análise com muita desinformação que ao ouvir estas palavras a pessoa esquece até quem ela é. Tudo é feito para a população brasileira se sentir culpada, mesmo vivendo sem nada.

E não resolve falar que o maior gasto do Brasil é com juros, que o próprio país define nas alturas, e é ele que precisa ser contido. Que isso está empobrecendo as famílias, inibindo a capacidade de trabalho, tornando o país improdutivo, gerando desindustrialização, drenando recursos públicos e privados para o rentismo, produzindo escassez para a maioria da população, que não tem dinheiro para fazer a economia funcionar, e não pode fazer empréstimos, porque isso seria suicídio. Ninguém quer ouvir ou acreditar em mais nada. Os maiores problemas do país foram sublimados, não tem causa, não decorrem de decisões, simplesmente, e não existem como problemas para a população brasileira, apesar dela sofrer com eles na carne, diariamente.    

Os políticos em Brasília não questionam a estrutura econômica do país e o que se gasta com os juros, falta de investimentos, por exemplo, só pode ser a economia do país assunto de menor importância. Os governadores e deputados também não questionam a federação. Há algum movimento por mais recursos para os municípios em Brasília? Os empresários, indústria e comércio, pelo jeito, está tudo bem, porque federações e associações não reclamam. A maioria da população está lutando para sobreviver, com muito esforço, por um prato de comida. A classe média parece estar enredada em discussões ideológicas, de alto nível, no momento, curtindo outra realidade. Enfim, ninguém está reclamando, então, deve estar tudo certo. Pelo jeito, o país vai muito bem da forma que está.    

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