21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Opinião

Crescer dói, tanto neles, quanto em nós

teste
Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Crescer dói. Falamos muito essa frase para as crianças, mas esquecemos de repeti-la para nós mesmos. Essa semana, alguns acontecimentos me fizeram perceber, de uma forma um pouco mais clara, que meu filho está crescendo. Estou vivendo o luto de deixar o meu bebê ir embora, para dar espaço ao menino que está chegando. À minha criança. De fato, crescer dói, neles e em nós.

Nessa fase, tudo é muito intenso. Pela primeira vez recebemos um bilhete na agenda, por um comportamento “questionável” (o biso Ailton deve ter se divertido e vibrado lá de cima). Pela primeira vez ele escreveu seu nome e a letra “R” começou a surgir em algumas palavrinhas. E, também, foi a primeira apresentação em uma festa junina para um grande público. Vi meu menino vencer seus medos e dançar diante de tantos olhares.

Em meio a tudo isso, a pergunta veio: onde está o meu bebê? E junto dela, um aperto no peito e um luto. O bebê que existia já não está mais ali, e o menino que chega me emociona, me orgulha e, ao mesmo tempo, me confronta. Às vezes até, me pego pensando em ter outro filho. Mas será que essa vontade é sobre reviver a paternidade ou apenas sobre tentar manter viva uma fase que passou?

Esses pequenos momentos trazem diversos sentimentos como: orgulho, medo, saudade, insegurança. Sobre a festa junina, ele não quis pintar o bigode e eu não insisti, lembro que eu também não gostava. A escolha foi dele. E tudo bem. Quando chegamos na festa, por exemplo, fiquei com receio que ele se recusasse a se apresentar, mas talvez aquele medo fosse mais meu do que dele, um reflexo de memórias mal resolvidas da minha própria infância. E ele dançou, enfrentou seus medos, foi firme e foi lindo. Então me permiti sentir. Senti por ele e por mim, deixando vir à tona emoções antigas da minha criança que estavam represadas.

Experiências como essas, me fizeram perceber como vivemos pequenos lutos todos os dias e, na maioria das vezes não nos damos conta. Não nos ensinaram a reconhece-los quando não envolvem a morte, como o luto pela infância que passa, pelas fases que se encerram. E, se não processamos essas emoções, corremos o risco de projetá-las nos nossos filhos.

A paternidade é feita de dualidades e se não acolhermos nossas próprias inseguranças, podemos acabar criando expectativas ou medos nos nossos filhos que não pertencem a eles. Como esperar que eles aprendam a lidar com frustrações, se nós mesmos ainda estamos perdidos com as nossas?

Por isso, vale parar, refletir e nomear o que sentimos. Buscar compreender que, sim, crescer dói, tanto neles, quanto em nós. E que tudo bem sentir. Sentir não é fraqueza, é parte do que somos. Só assim conseguiremos acompanhar nossos filhos com mais segurança e menos expectativas.

E você? Como tem lidado com seus lutos e os tantos sentimentos que acabam aflorando com a paternidade e que, para os quais, talvez nunca tenha tido espaço para sentir?

Talvez seja hora de conversar sobre isso, organizar esses sentimentos, permitir-se sentir e, se for preciso, procurar por ajuda. Não para ser um pai perfeito, mas para ser um pai por inteiro.

Publicidade

Blog dos Colunistas

;