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Saúde

O lado silencioso da maternidade

Depressão pós-parto afeta mães, pais e precisa ser acolhida com seriedade

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Depressão pós-parto é mais comum do que se imagina. Não hesite em buscar ajuda, cuidar da saúde ment
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Divulgação

A chegada de um bebê, principalmente quando planejada, costuma ser um momento de muita alegria para a família. Mas, para muitas mães e, também para alguns pais, esse período pode ser marcado por tristeza profunda, solidão e sofrimento emocional. A depressão pós-parto, uma condição ainda cercada de tabus e, que afeta além da saúde mental da mulher, todo o núcleo familiar. E quanto mais silenciosa ela é, mais perigosa se torna.

O que é a depressão pós-parto e como identificá-la?

A depressão pós-parto pode surgir nas primeiras semanas após o nascimento do bebê, mas também se manifestar ao longo do primeiro ano. Ela se distingue do chamado “baby blues”, condição comum nos primeiros 15 dias do puerpério, caracterizada por variações leves de humor, irritabilidade e choro fácil.

“No baby blues, é normal ter um choro mais fácil, irritabilidade, oscilação de humor. Já a depressão é mais profunda, com sintomas como culpa intensa, cansaço persistente, ansiedade extrema e dificuldade em criar vínculo com o bebê”, explica a ginecologista e obstetra, Dra. Amanda Favero.

A psicóloga Fernanda Lira complementa: “É um tempo de vulnerabilidade, e justamente por isso precisa ser acolhido com escuta e empatia. Muitas mulheres dizem: ‘Não me reconheço mais’. Essas experiências merecem atenção e cuidado profissional”.

Os sintomas da depressão pós-parto incluem tristeza contínua, falta de energia, insônia, irritabilidade, pensamentos negativos e, em casos graves, ideação suicida. Para a psicóloga Paloma Poletti, quando esses sinais se prolongam além das duas primeiras semanas do puerpério, é necessário buscar ajuda especializada.

Fatores de risco e o impacto do tipo de parto

A condição pode acometer qualquer mulher, mas alguns fatores aumentam o risco: histórico de transtornos psiquiátricos, gravidez não planejada, ausência de rede de apoio, parto traumático e problemas conjugais.

“A frustração com o tipo de parto pode gerar impacto emocional. Se a mulher desejava um parto normal e precisou de uma cesariana de urgência, por exemplo, pode se sentir impotente e sobrecarregada emocionalmente”, alerta a médica.

Partos gemelares e cesáreas, por exigirem mais cuidados físicos no pós-operatório, também podem intensificar o esgotamento da mãe.

A ausência do parceiro ou de suporte familiar agrava a sobrecarga emocional e física da mulher. “Mesmo quando não há depressão, o puerpério é um período extremamente difícil, e a falta de apoio só intensifica o sofrimento”, afirma Paloma Poletti.

Amamentação: entre a dor e o aprendizado

Outro desafio no pós-parto é a amamentação. Embora seja amplamente idealizada, a realidade pode ser dolorosa e exaustiva.

“A amamentação não deve ser romantizada. É um processo que exige orientação, paciência e apoio. Quando há pega incorreta, pode gerar dor, fissuras e até desestimular a mãe”, destaca a Dra. Amanda.

O tipo de parto pode influenciar o início da amamentação. “Na cesárea, às vezes o corpo ainda não ‘entendeu’ que o bebê nasceu, o que pode atrasar a descida do leite”, explica.

Independente da via de parto, especialistas apontam a importância do contato pele a pele na primeira hora de vida, a chamada golden hour, como fundamental para estabelecer o vínculo e facilitar a amamentação.

O papel do pai: mais que apoio, corresponsabilidade

“O pai não está ali apenas para o bebê, mas para essa mãe também”. A frase da psicóloga Paloma Poletti resume a importância da presença paterna no pós-parto. Apoio emocional, divisão das tarefas e escuta ativa são atitudes fundamentais para evitar o colapso físico e emocional da mulher.

A presença ativa do pai, principalmente nos primeiros dias e semanas após o parto tem um papel decisivo na saúde mental da mãe e na construção de vínculos afetivos com o bebê. “O pai não substitui, mas ampara”, resume Fernanda Lira.

Bruno Leite, pai de primeira viagem, conseguiu 20 dias de licença e relata que sua presença foi decisiva: “Cuidando dela, eu também cuidava dele. A única coisa que me permitiu incorporar a rotina de cuidado foi o tempo que eu tive de presença”, pontua, mas destaca que acha 20 dias pouco tempo para tanta demanda.

Já Jonas Oliveira, que teve 25 dias de afastamento, lamenta que não tenha sido suficiente. “Se eu tivesse mais tempo presente nos primeiros meses, talvez minha esposa não tivesse tido depressão”.

Quando a mãe sofre: relatos reais de superação

Bárbara percebeu os primeiros sinais quando não conseguia mais se reconhecer. Sentia-se sozinha, triste, e sem paciência com o bebê. “Foi traumático. A ausência do pai agravou tudo. Se eu tivesse ajuda, teria sido diferente”. O apoio de familiares e a terapia foram fundamentais para sua recuperação, que levou mais de um ano.

Renata, por sua vez, viveu a maternidade ao lado de um parceiro fisicamente presente, mas emocionalmente ausente. “A pior solidão é ter alguém perto e, ao mesmo tempo, não ter”, afirma. Então, mergulhou em um quadro severo de depressão. “Eu amava meu filho loucamente, mas me sentia como se não devesse ter engravidado”. A depressão a levou a pensamentos suicidas, e a espiritualidade foi o que a impediu de tirar a própria vida. “Aquela dor, ela não ia sair. Foi aí que eu procurei o psiquiatra”. Então, após meses de sofrimento e resistência ao tratamento, buscou ajuda psiquiátrica e iniciou a jornada de cura, que durou mais de três anos.

A depressão paterna: um tabu ainda pouco discutido

Embora menos discutida, a depressão pós-parto paterna é real. Jonas só reconheceu o problema após mais de dois anos do nascimento do filho. “A psicóloga confirmou que eu tive. Mas é difícil falar disso entre homens”.

Fernanda Lira explica que, nos homens, os sintomas nem sempre aparecem como tristeza. Podem surgir como irritabilidade, isolamento, abuso de álcool ou excesso de trabalho. “Existe um tabu: homem não pode chorar, não pode ter depressão. Muitos internalizam esse sofrimento”. E a pressão cultural para que o homem seja forte e provedor dificulta a busca por ajuda.

Bruno relata sentimentos parecidos, como sobrecarga, cansaço e solidão. “Mesmo que eu tivesse depressão, não saberia. Nunca fui atrás de diagnóstico”.

Caminhos de prevenção e redes de apoio

A prevenção da depressão pós-parto começa com a informação. Conhecer as transformações do puerpério e contar com uma rede de apoio são fatores que fazem diferença. Grupos de mães, acompanhamento psicológico, medicação (quando necessária) e terapias alternativas, como yoga e meditação, estão entre os recursos disponíveis. “A prevenção começa com apoio verbal, físico e emocional e garantindo que a mulher também tenha tempo para si”, afirma Dra. Amanda.

“O obstetra pode ser o primeiro a identificar sinais e encaminhar a paciente”, destaca a médica, que também enfatiza a importância de olhar para a mulher de forma integral.

Maternidade: uma nova mulher nasce

O pós-parto é um período de transformação física, emocional e psicológica, que requer empatia, informação e cuidado contínuo, afinal, “não é só o bebê que nasce, nasce uma mãe. E ela precisa ser cuidada também”, conclui Dra. Amanda Favero.

Se você ou alguém que conhece está enfrentando dificuldades emocionais no puerpério, procure ajuda profissional.  A saúde mental é parte essencial do cuidado com a família.

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