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Opinião

O Menino e as Pessoas

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Dr. Alcides Mandelli Stumpf
Foto Divulgação

Quando criança, eu tinha um passatempo excêntrico: observar adultos. Principalmente os estranhos.

Curioso, olhava tudo, gestos, modos, momices desenhadas nas entrelinhas. Prestava atenção às palavras, no tom de voz. As gargalhadas às vezes pareciam-me gritos disfarçados.

Eu não sabia, mas estava aprendendo uma ciência indispensável: expressão corporal.

Com inocência, ligava o meu radar intuitivo e catalogava tipos na memória desocupada:  ameaçadores, trapaceiros, ilusionistas, mentirosos de carteirinha. Era como se eu enxergasse máscaras por trás de faces.

Certas vezes, por diversão, eu os imitava — figuras grotescas de roucas vozes e desalinhadas poses, transformavam-se em personagens no meu bizarro teatro infantil.

O tempo passou. Cresci, infelizmente. Como acontece com todo mundo, perdi as virtudes puras da infância. Fiquei seco, amargo, sem graça e terrivelmente adulto.

Porém, ultimamente, ando a fazer algo novo — ou talvez algo velho. Esforço-me para voltar a olhar o mundo com os olhos daquele menino que há muito tempo fui.

Tenho me esmerado em reler as pessoas, gestos, vozes e expressões.

Na verdade, estou achando todo mundo muito parecido, principalmente nas vitrines digitais das redes sociais e na mídia em geral, engomada e falsa.

Falta espontaneidade, sobram trejeitos ensaiados na frente do espelho ou atrás das lentes.

Descubro, a cada dia, que há muito o que ver - e não imitar, sequer por brincadeira. Muitos olhos arregalados, sorrisos duros, rostos descorados — sinais nítidos de nervosismo em uma peça mal ensaiada.

Ao mesmo tempo, essa prática devolveu-me algo inesperado: uma deliciosa transformação em mim mesmo.

Notei que, ao prestar atenção de verdade e na verdade, mudei. Tornei-me mais leve nas conversas, mais gentil na escuta, menos apressado nos julgamentos. E isso, pasmem, tem mudado meus relacionamentos. Tenho me sentido menos só e mais bem acompanhado.

 

Às vezes percebo rostos vivos ao meu redor, olhares calmos e sorrisos sinceros. Vejo gente que acredita num bem que está por vir – mesmo que aconteça somente no ano que vem.

Talvez essa mudança não passe de uma tremenda infantilidade minha. Talvez. Mas é muito bom sentir-me assim. E, no fundo, não é disso que precisamos de vez em quando? Um pouco mais da pureza do olhar curioso de uma criança. Um pouco menos de certeza e mais encantamento nessa vida que nos é única e passa rápida, sem tréguas.

Dar tempo para alguém acreditar que pessoas boas ainda existem.

 

*Médico

*Membro da Academia Erechinense de Letras

*Presidente da Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul (AABPE)

 

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