Todo mundo sabe que a maioria dos homens tem uma relação quase mística com seus automóveis. Rola até paixão mesmo por aquelas latas velhas.
Conheço alguns que tratam o carro melhor que o fígado (apesar de beberem o equivalente). Outros têm ciúmes do mecânico.
Mas, numa conversa entre especialistas e aficionados, daqueles que já viram o eixo do Opala se separar da roda na subida, surgiu uma revelação ainda mais sombria: muitos de nós já possuímos carros assombrados.
Isso mesmo, carros que pareciam saídos de um filme B de terror, se você dava ré, acendia o farol; se batia a porta, o limpador de para-brisa entrava em ação; ao ligar o rádio, o carro apagava.
E o pior: quando você resolvia mostrar o defeito para o mecânico, o “fantasma” desaparecia, como quem diz: “te peguei, otário”.
Mas a melhor história veio de um amigo que, todo domingo, levava os filhos à sorveteria. Ritual sagrado. Só que havia uma maldição: se a escolha fosse sorvete de morango, o carro não pegava na volta. De chocolate? Tranquilo! A ignição funcionava como um relógio suíço.
Levaram meses para entender o fenômeno. Nada de exorcismo ou benzedeira. A explicação era científica (e hilária): o sorvete de morango era servido mais rápido. O carro não tinha tempo de “respirar” e afogava. Já o de chocolate, mais demorado, dava o intervalo perfeito para o motor se recompor, ou seja, o problema não era o morango, era o timing.
E aí, como todo consultor, adorei a frase perfeita: “Assombração, até ser descoberta, é sobrenatural… depois a gente vê que era só incompetência mesmo”.
Assim como em empresas sem planejamento, você olha para o caos, ouve justificativas mágicas (“O cliente sumiu”, “O mercado mudou”, “O sistema nos sabotou”).
E parece tudo culpa de forças ocultas, mas, na real, o que falta é estrutura, disciplina, método e, às vezes, só bom senso para entender a mecânica das coisas.
Curioso, porque tem dias em que pareço aqueles mecânicos calejados. Pelo barulho, já saco o problema. Quando vou dar uma volta de teste no mercado, entendo que tem muita engrenagem gasta. Fácil de entender. Difícil de achar peça sobressalente.
Sem gestão, até planilha parece possuída. E, no fim, o problema nunca foi o morango, foi gente mesmo.