21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Opinião

O problema é de organização política e social

O endividamento do Estado brasileiro não se deu em função de investimentos em políticas sociais ou infraestruturas, diz economista. “82% da dívida resultam de juros reaplicados”. Dowbor mostra que a última coisa que o Brasil precisa é esfriar a economia. “Esta é a raiz real do déficit das contas públicas, não o SUS ou o Bolsa Família”.

teste
Ígor Dalla Rosa Müller
Por Igor Dalla Rosa Müller
Foto Jornal Bom Dia

Por que a democracia e o capitalismo não entram em colapso? Falo isso porque estes regimes são cada vez menos representativos e improdutivos para a sociedade e, mesmo assim, ainda se mantêm em pé. Antes de mais nada, não sou a favor de regimes políticos totalitários, sejam eles de esquerda ou direita. Democracia sempre.

O Estado tem que dar o exemplo, não deveria ser omisso, muito menos totalitário, como já foi. Entre as várias atribuições, a mais importante é promover o bem-estar social, por meio de investimentos em saúde, educação, moradia, segurança, cultura, lazer e infraestrutura. É fazer o que está na lei, só isso. Óbvio que não é assim que funciona, porque se assim fosse este seria um outro país.    

Cito como exemplo de omissão do Estado brasileiro, na região, o asfaltamento da Transbrasiliana (BR 153). Os políticos locais e regionais há muitos anos se empenham para tentar colocar em prática esta obra de infraestrutura nacional e essencial para o Rio Grande do Sul. No entanto, ela não sai do papel. Brasília, simplesmente, ignora. Agora, num novo episódio desta novela, entre tantos outros, ao longo de 50 anos, o governo federal publicou portaria aprovando o projeto executivo da BR 153. Será que vai?

Não importa se a população acredita ou não nesta empreitada. Aliás, se isso é importante é sinal que o objetivo desta informação seja, puramente, político, porque ano que vem tem eleições. Como que se desenvolve uma região? Começando com investimentos públicos em infraestrutura. Este é o trabalho do Estado. O projeto da Transbrasiliana é mais do que legítimo e necessário, envolve questões sociais, econômicas, culturais, enfim, a transformação da realidade para melhor. Ele não requer mais argumentos, mas que o Estado faça a sua parte. Só isso.          

No capitalismo brasileiro, às avessas, o objetivo da política econômica é enfraquecer a economia, com os juros altos. O expediente é retirar o dinheiro de circulação, com o pretexto de combater a inflação. Com isso se acumula nas mãos de poucos. Tá aí a resposta. Ponto. Uma lógica cruel que empobrece as famílias, encarece o crédito para empresas, e acelera a desindustrialização. Aumento da Selic para conter a inflação é ineficiente e só agrava a situação, eleva os custos dos produtores e consumidores, reprime a atividade econômica sem atacar as causas reais da inflação, como bem explica a Auditoria Cidadã, há anos.   

E as coisas não são por acaso no Brasil, tudo é bem pensado e maquinado. Os representantes públicos sabem bem como tudo funciona. Inclusive a política suicida dos juros altos. O Estado é muito eficiente em cobrar quando quer, dar isenções para agradar alguns se conveniente. Sabe muito bem utilizar as leis para fazer a máquina pública funcionar ou não, quando este é o objetivo. O problema é que do jeito que está prejudica 90% da população, trava o desenvolvimento do país e o bem-estar dos brasileiros.

O professor de economia da PUC-SP, consultor de várias agências da ONU e autor de numerosos livros, Ladislau Dowbor, em artigo “O fluxo financeiro integrado no Brasil”, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil (julho de 2025), ressalta que a principal característica da economia brasileira é a desigualdade. Reproduzo algumas partes do texto. “O essencial a compreender é que nosso problema não é econômico, de falta de recursos e sim de organização política e social”.

Ele afirma que o endividamento do Estado brasileiro não se deu em função de investimentos em políticas sociais ou infraestruturas. “82% da dívida resultam de juros reaplicados”. Dowbor mostra que a última coisa que o Brasil precisa é esfriar a economia. “Esta é a raiz real do déficit das contas públicas, não o SUS ou o Bolsa Família”.

“Se a taxa Selic representa um dreno improdutivo dos recursos públicos, a taxa de juros sobre as famílias, pessoas físicas, é ainda mais escandalosa. A taxa de juros sobre o crédito livre foi de 57,4%, em abril de 2025, o que faz que as famílias gastem em média 27,2% de sua renda pagando juros aos bancos. Na Europa, para ter um ponto de referência, a taxa de juros média para pessoas físicas é da ordem de 5% ao ano”.

O economista explica que, no caso das pessoas jurídicas, em função do que se pode ganhar com a taxa Selic, o investimento privado produtivo é desestimulado. “Se a empresa quiser expandir, a taxa de juros média nos bancos é de 26%, comparada com cerca de 3% ao ano no resto do mundo. Não é viável”.

“Lembremos que apresentar juros ao mês é uma forma de desinformar as pessoas, pois poucos saberão calcular o juro composto anual. No mundo todo, os juros são apresentados ‘ao ano’. Como ordem de grandeza, o dreno sobre as pessoas jurídicas por meio de agiotagem é da ordem de 4% do PIB. Ao drenar o setor produtivo, em particular a pequena e média empresa, prejudica-se o investimento produtivo, o emprego e o crescimento econômico”.

Dowbor afirma que as taxas de juros cobradas no Brasil são surrealistas e drenam, portanto, “em porcentagem do PIB, 8% da capacidade de investimento do Estado, 10% da capacidade de compra das famílias e 4% da capacidade de investimento das empresas, um total da ordem de um quarto do PIB”.

E como sempre pode piorar no Brasil. “Às taxas de juros pagas pela dívida pública, o dreno sobre pessoas físicas e pessoas jurídicas, bem como evasão e renúncias fiscais, é preciso acrescentar outro grupo de drenos: a deformação do sistema tributário”.

Por que a população não se revolta com tudo que está aí? Porque o brasileiro é esfolado vivo, diariamente, por todo este sistema financeiro e muito mais. O que resta é sobreviver.  

Publicidade

Blog dos Colunistas

;