Retomando o assunto da última coluna: a licença-paternidade, lembro do que ouvi de uma mãe após entrevista-la, dizendo que concordava com o aumento desse tempo para os pais, mas que, antes de tudo, era urgente ampliar a licença-maternidade. Concordo. As mães precisam de mais tempo, sim. Mas é preciso cuidado, pois aumentar apenas a licença delas pode acabar ampliando ainda mais o abismo da responsabilidade, deixando as mulheres ainda mais sozinhas.
Guardadas as devidas proporções, penso nisso como na assinatura da Lei Áurea. A escravidão foi formalmente abolida, mas não houve políticas públicas que integrassem os ex-escravos à sociedade. O resultado? As cicatrizes estão aí até hoje, no racismo estrutural que ainda enfrentamos. Achou exagerado? Falamos então de algo mais próximo, o machismo. O pai, por lei, ainda é isento de estar presente após os cinco ou 20 dias. E isso reforça o ciclo de uma masculinidade ausente, que continua sendo reproduzida por homens e, pasmem, por muitas mulheres também, que ainda se colocam contra a ampliação da licença-paternidade.
Não pagar pensão dá cadeia. Mas não dar afeto, não dar colo, não ser presente, não gera nenhuma consequência legal. Só que as marcas dessa ausência chegam, mais cedo ou mais tarde, mas chegam. E com isso, repetimos os mesmos padrões.
Ser pai foi o maior presente e, também, o mais desafiador que já recebi. Minha experiência com a paternidade começou de forma nada comum. A gestação já foi cheia de incertezas, e o parto que aconteceu em um dos verões mais quentes que me lembro de ter passado em Porto Alegre, foi um momento que misturou a alegria da chegada de um filho e a dor da partida de outro.
Por mais de dois anos, trabalhei de home office - me dei esse privilégio - e pude viver a paternidade com intensidade. Troquei fraldas, dei banho, aprendi a distinguir choros, acalmei cólicas, lidei com refluxo, APLV, vômitos, sustos. Estive com minha esposa nos momentos em que as dores físicas do pós-parto se misturavam às dores da alma. Nossa dor se reconhecia uma na outra e a presença foi nosso remédio.
Foi real. Sem romantismo. Tive o privilégio de ser pai de verdade. Hoje, com a rotina do trabalho presencial, muita coisa mudou. Mas o vínculo com meu filho permanece forte, porque foi construído com tempo, cuidado e convivência. Fui protagonista junto com a mãe. E isso só foi possível porque estive presente.
Cinco dias? Mal cobre o tempo de hospital. Cinco dias não é tempo para aprender a ser pai, não é tempo suficiente para se conectar com um bebê e ser suporte para uma mãe. Não é tempo para segurar um recém-nascido enquanto a mãe, recém-operada, tenta se levantar da cama. Não é tempo para aprender a dar banho, ninar, fazer dormir, enfrentar madrugadas no hospital, lidar com o choro da dor da criança, da mãe e da nossa.
Presença não se improvisa. Vínculo não se constrói por decreto. E quem acha que licença-paternidade é luxo, nunca se permitiu viver a paternidade de verdade.