21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Opinião

Pense como uma montanha

teste
Gerson Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Essa é a expressão usada pelo filósofo norueguês Arne Naess (tomada de Aldo Leopold em livro de 1949), criador do termo "ecologia profunda", para formular a ideia de que "devemos pensar sobre as necessidades de longo prazo do meio ambiente como um todo." Pensar como uma montanha seria "compreender que somos parte da biosfera" e "entender nossa responsabilidade em relação a todos os outros seres vivos." O nexo é este: trabalhando como guarda-florestal no início do século XX, Aldo Leopold desferiu um tiro de espingarda em uma loba, em uma montanha. "Alcançamos a velha loba a tempo de ver um brilho verde selvagem morrendo em seus olhos. Percebi então, e sei desde então, que havia algo de novo naqueles olhos, algo conhecido apenas pela loba e pela montanha."

 

Leopold teve um insight, uma experiência extraordinária – um “treco existencial”, que é parecido com o “treco estético”. O treco estético (Cláudia Laitano) seria aquilo que ocorre por vezes na mente de alguém diante de um livro, um filme, uma obra de arte qualquer, e que faz a cabeça rodopiar, a sensibilidade dar um pinote, deixando a pessoa extasiada e tonta, “fora de lugar”. Quando isso acontece, seu horizonte mental, cultural, é deslocado para um patamar acima (em direção ao infinito e além) de onde estivera até então.  Bem: o treco de Aldo Leopold foi existencial, ou estético-existencial: ao contrário do estético, ele te põe no lugar, te arremessa para o teu centro (e o da loba, e o da montanha) em vez de te tirar dele. O resto é igual: os dois saltos são, de certo modo, epistemológicos – montanhas da mente. E por causa desse “treco” (e de Arne Naess), temos hoje em nosso repertório de ideias e de ação no mundo o conceito de “ecologia profunda”. Profundo, né?

 

Aquela experiência – deflagrada desde uma ação violenta (há um sofrimento de fundo na rede, uma parcela de dor que está sempre lá e que não é possível curar, ignorar ou remediar, não é mesmo, Sidarta?) – terá sido, também, uma experiência mística, pois apresentou seus quatro traços fundamentais (William James): foi transitória (durou um instante incalculável), foi indizível, foi pedagógica e, de certa forma, passiva – é percebida como vinda “de fora”, como uma “graça”, um “gift”. Sabedoria antiga, disposta em geografias inúmeras, atesta que as montanhas ensinam. “Capture os espíritos da montanha/ Faça-os divulgar seus segredos/ Apenas com força há descoberta.” O hexagrama 33 do I-Ching é o “A Retirada/ O Afastamento”, Céu sobre Montanha – ali temos alguém que produziu um autodeslocamento, talvez para decantar a experiência; uma meditação – sentar-se imperturbável como uma montanha; um recuo, um recolhimento para escrever um poema, um aforismo... um livro? Desde a perspectiva da possibilidade do saber compartilhado pela loba, pela montanha e por Leopold, quem terá feito o célebre sermão? Jesus ou a montanha? Os dois? Uma “trindade de quatro”? De tudo?

 

Hoje, e em outra clave, nunca foi tão necessário pensar como uma montanha: há gente demais pensando como um montinho de areia daqueles que o vento traz dos cômoros e faz acumular ao pé das paredes e portas das casas de praia. Mais baixinhos que a altura de um chinelo-de-dedo.

 

E, depois, removamos as montanhas com todo o cuidado, meu amor.

Publicidade

Blog dos Colunistas

;