Achei interessante a “mania” de um alto executivo de uma empresa multinacional, cliente há alguns anos.
Ele questiona frequentemente (e de certa forma incentiva) seu time para uma “potencial crise virtual”:
— Qual é a próxima máquina a parar, interromper a produção, atrasar entregas e prejudicar a superação das metas?
— Poxa, chefe! Vira essa boca pra lá. Nenhuma máquina está com risco de pane.
— Mesmo assim, quero saber: qual máquina tem mais chance de dar pau?
E assim todos da área de manutenção, gerência industrial, S&OP, PCP saem simulando problemas de parada, testando potenciais riscos.
Na sequência, chama o pessoal do RH:
— Qual grande e imprescindível talento perderemos este mês?
— Credo, patrão, pra quê essa colocação? Que negatividade! O pessoal está engajado, turnover baixo.
— Ok, mas qual é a próxima liderança que vai nos deixar na mão? E quando teremos uma queda na velocidade de contratação atrapalhando o headcount?
E daí o pessoal sai aplicando todo tipo de pesquisa e diagnóstico de clima para entender possíveis rupturas no tecido cultural.
Chama o comercial e tasca:
— Qual cliente vamos perder para a concorrência neste quarter?
— Nossa, meu diretor! Estamos com a execução em ordem.
— Certo, mas com os cinco principais clientes nos deixando, como substituiremos esse volume entre os demais clientes da carteira? Como garantimos nosso market share?
E a galera zarpa a reforçar a blindagem com campanhas, atuando com um programa mais parrudo de relacionamento e reciprocidade, reformando métricas da inteligência de mercado, revendo a cobertura de mercado.
E assim segue colocando “fogo estoico” no parquinho, duvidando e fazendo a baiana rodar em cada canto, criando um terror sobre pontos cruciais da gestão de risco.
A prática desacomoda, instiga, agita e traz uma proatividade interessante. Faz a galera pensar o tempo todo no ataque aos incêndios imaginários.
Uma espécie de paranoia do bem, levando a liderança a um estado de atenção e consciência crítica úteis, sem brigas, sem violência, mas com forte sentido de inovar para melhorar. Se antecipar, estar um passo à frente de suas provocações.
Interessante constatar a maturidade da equipe, construída em anos de “crises” e de superação em “jogos simulados de guerra”.
Todos na trincheira se apoiam na identificação de problemas e na busca conjunta de soluções.
Entendi o atual movimento forte que estamos fazendo de qualificação do grupo gerencial: preparar o próximo patamar estratégico, qualificando e “testando” quem estará neste novo ciclo.
Está aí um jeito diferente de fazer liderança: GPCV — Gestão Por Crises Virtuais.