Novamente, os tais eventos climáticos extremos se repetiram no RS, desta vez em menor intensidade. Entre os dias 14 e 30 de junho passado, choveu muito no Rio Grande do Sul. Em algumas regiões, o volume previsto para três a quatro meses se concentrou em 17 dias.
Foram coletados dados pluviométricos em 103 estações meteorológicas, utilizados para quantificar o volume total de chuva registrado no período. Mais uma vez, foi muita água.
Analisando as áreas pelo volume de chuva, podemos inferir o potencial dos eventos extremos que novamente retornaram ao RS.
1º) Áreas com precipitação de 300 a 500 mm: Região Central do Estado (próximo a Passo Fundo, Santa Maria e Lajeado): esta área registrou os maiores volumes de chuva, entre 300 e 500 mm. Esses níveis de precipitação são extremamente elevados em um período de 17 dias. Tais situações representam um risco altíssimo, podendo ocorrer:
a) Inundações generalizadas: rios e córregos podem transbordar significativamente, afetando áreas urbanas e rurais extensas. A capacidade de drenagem do solo e da infraestrutura é provavelmente superada;
b) Enxurradas: o escoamento superficial intenso pode gerar enxurradas rápidas, especialmente em áreas de declive ou com pouca vegetação, arrastando detritos e causando danos;
c) Movimentos de massa (deslizamentos de terra): solos saturados perdem sua estabilidade, tornando as encostas, morros e barrancos extremamente vulneráveis a deslizamentos. O risco é ainda maior em áreas com histórico de movimentos de massa ou com ocupação irregular.
2º) Áreas com precipitação de 200 a 300 mm: Partes do noroeste, nordeste e centro-sul (incluindo regiões próximas a Santo Ângelo, Frederico Westphalen e Caxias do Sul): embora com volumes entre 200 e 300 mm, a chuva ainda é significativa.
Tais volumes podem causar:
a) Inundações localizadas: principalmente em áreas baixas, próximas a cursos d'água ou com problemas de drenagem;
b) Enxurradas: possíveis em áreas com rápida concentração de escoamento superficial;
c) Risco moderado de movimentos de massa: em encostas mais íngremes ou com solos já saturados por chuvas anteriores.
3º) Áreas com precipitação de 100 a 200 mm e 50 a 100 mm: Extremo Sul e Litoral Norte: nessas áreas registraram-se os menores volumes de chuva no período.
Para este caso e semelhantes, o risco de eventos extremos como inundações generalizadas, enxurradas severas ou grandes movimentos de massa é consideravelmente menor, embora inundações pontuais em áreas urbanas com deficiências de drenagem sempre possam ocorrer com chuvas intensas.
Considerações adicionais para a análise de eventos extremos
a) Saturação do solo pré-existente: se o solo já estava saturado por chuvas anteriores a um determinado período, o risco de todos os eventos extremos aumenta exponencialmente, mesmo com volumes de chuva menores;
b) Topografia e geomorfologia: áreas montanhosas, com encostas íngremes e vales estreitos, são naturalmente mais suscetíveis a enxurradas e deslizamentos;
c) Ocupação do solo e urbanização: cidades com alta densidade populacional, impermeabilização do solo e sistemas de drenagem inadequados são mais vulneráveis a inundações e enxurradas, mesmo com volumes de chuva moderados. O desmatamento e a ocupação irregular de encostas aumentam drasticamente o risco de deslizamentos;
d) Infraestrutura: a condição de pontes, estradas e sistemas de contenção de encostas pode influenciar a severidade dos impactos.
Considerações finais
Com base nos dados pluviométricos, as regiões central e partes do noroeste e nordeste do Rio Grande do Sul estiveram sob alto a altíssimo risco de inundações, enxurradas e movimentos de massa entre 14 e 30 de junho de 2025, devido aos volumes excepcionalmente altos de precipitação. Não apenas estiveram, como sofreram os efeitos da obstrução de estradas, pontes destruídas e casas alagadas. As autoridades de Defesa Civil local e a população nessas áreas foram devidamente alertadas e se mostraram mais bem preparadas para ações de resposta e mitigação de desastres em relação a 2024.
As previsões indicam que poderão ocorrer novos eventos extremos no RS, e estes dados e informações servem para mostrar que poderemos ter novos estragos e prejuízos. Isso serve como lição e como guia de como se deve atuar. É importante trabalhar na precaução, mitigação e treinamento de equipes e da população.
Texto com participação de: Engº Florestal Marcos L. Kazmierczak, Doutor em Eventos Extremos, KAZ Tech