Relembrar meu pai me conduz a inúmeras emoções e reflexões profundas. Durante a infância e mesmo na juventude, lembro-me de um pai trabalhador, leitor de tudo o que lhe caísse nas mãos. Honesto e bom cidadão.
Porém, o que realmente marcou o meu viver foi a lembrança de um homem sério, de terno, gravata e chapéu. Em todas as cerimônias frequentadas por ele, lá estava Anacleto de terno, gravata e chapéu Prada. Era sua marca e seu modo de dignificar as pessoas e os acontecimentos.
Lembro-me dos meus 15 anos, ocasião em que havia um bolo enorme, quadrado, feito por uma vizinha. Era recheado com coco, chocolate e creme de vinho. A massa era uma delícia só! Somente na foto se percebeu que o bolo estava “torto”. Mas o emocionante da foto, e que sempre enche meu coração de ternura, é a presença de meu pai, elegante em seu terno e gravata. Ali ele mostrou seu respeito pela simples festinha da filha e suas seis convidadas, além da família.
Com a idade avançando e sua doença, meu pai adotou um boné. Mas seu chapéu Prada, preto, estava sempre à disposição em seu roupeiro.
Da infância vem também a bela lembrança de quando, aos domingos, mãe Graciosa nos vestia — minha irmã e eu — com nossos vestidinhos domingueiros. Cabia a meu pai nos pentear e colocar fitas coloridas em nossos cabelos. Assim saíamos todos para o passeio ao “centro” da cidade, onde vez ou outra aparecia um fotógrafo que marcava aquele inesquecível passeio, no qual o honrado trabalhador de terno, gravata e chapéu levava sua esposa de longos cabelos e filhas para admirar o chafariz e as pessoas, após a missa dominical.
Pai Anacleto sempre foi magro, cuidadoso com suas roupas e com o único sapato para passear. Assim como ele fazia, quando chegávamos, limpávamos nosso calçado e o guardávamos.
Meu pai ajudava minha mãe em tudo. Fazia comidas saborosas. Lembro-me de sua figura colocando o fígado no leite para tirar-lhe o amargor. Orientou-me, ainda menina, sobre como passar suas alvas camisas e ajudá-lo a inspecionar os calçados para ver a necessidade de consertos. Pai Anacleto dizia não ser demérito ser pobre. Mas sim, o era ser relaxado.
Esse exemplo paterno me fez obsessiva por banhos e roupas passadas e cuidadas, sempre preocupada em respeitar o “nariz alheio”. Guardo lembranças preciosas desse pai de honra extrema, que tinha pânico de dívidas; que amava e cuidava dos animais e de sua horta, sempre plena de verduras e temperos.
As mãos dadivosas de meu pai construíram brinquedos e móveis, em épocas em que não podia comprá-los. Tudo com perícia invejável.
Quando fazíamos aulas de pintura em tela, a paleta e a cestinha com compartimentos para tintas e pincéis saíam perfeitas — e invejadas pelos colegas — das mãos de meu pai.
Eu não tinha plena consciência do valor de Pai Anacleto quando era jovem. Só sabia que ele resolvia tudo, nos protegia.
Algo sem preço foi-me ensinado por ele: a sempre avaliarmos o ser humano pelo caráter, atos e atitudes, independentemente de filiações partidárias. Pai Anacleto, de pouco estudo, mas de caráter reto, deu-nos exemplos duros, como o de nunca ficarmos presos a ninguém — quer políticos, partidos etc., pedindo-lhes favores ou emprego sem merecimento ou concursos.
Segui à risca seu conselho. O que consegui, tudo foi por mérito próprio, sem pisar ou plagiar ninguém, trilhando uma estrada limpamente aberta por meus esforços. Eu me orgulho de nunca ter usado trabalhos de outras pessoas, dizendo que eram meus. Meu pai querido passou grande parte da vida em hospitais. Porém, sempre esperançoso de melhoras, porque ele amava a vida.
Com meu sofrido pai de olhos azuis, aprendemos a gostar de músicas de boa qualidade, em especial as de língua espanhola, pois ele era descendente de mouros andaluzes. Todo mês, pai Anacleto comprava um disco ou dois, LPs ou compactos. Gostava demais de ler seus livrinhos de faroeste.
Lamento muito não ter sabido dizer com propriedade e no tempo certo tudo o que meu pai significou para mim e quão grande foi seu legado. Na semana dedicada ao pai, expresso meu amor e meu orgulho por tê-lo tido como meu pai, Sr. Anacleto!