Quando comemoramos a data dedicada ao patrimônio, nossa emoção, nosso conhecimento e reconhecimento voltam-se para Erechim, que nasceu e cresceu graças ao trabalho dos colonizadores imigrantes, seus descendentes e tantos outros aqui chegados. Dois marcos importantes da imigração e da migração estão presentes, de forma profunda, na memória e no sentir da cidade: o prédio da Antiga Comissão de Terras, que ganhou o apelido popular de “Castelinho”, e a Casa Primeira Escola do professor Mantovani. Ambos com significância histórica e arqueológica.
Por esse motivo, pesquisei e elaborei um trabalho que resultou em livro, publicado em 2008 pela EDIFAPES, intitulado “Marcos do colonizador: O Castelinho e a casa”.
Optei por analisar ambas as unidades arquitetônicas também pelo viés da Arqueologia Histórica, que estuda os restos materiais de qualquer período histórico e tem condições de contestar ou confirmar registros escritos, preencher lacunas, precisar locais de ocorrências de fatos históricos, entre outras considerações.
Foram empregadas fontes de informação e de pesquisa nos artefatos, nas estruturas, na arquitetura, nos documentos escritos, nas informações orais e nas imagens pictóricas. Analisaram-se plantas e mapas dos tempos iniciais da colonização e posteriores, para identificar neles as duas unidades propostas.
Trabalho árduo, consciencioso e sério, que contou com entrevistas gravadas com o amigo e arquiteto José Albano Volkmer e Maríndia Girardello. Igualmente, contou com a colaboração técnica da arqueóloga Fernanda Tochetto, da PUC de Porto Alegre, com orientações do arqueólogo André Soares, da USP, meu orientador no curso de Arqueologia da URI Erechim. Contou também com a colaboração do Studio Fotográfico Artus, acompanhada que fui por vastas referências indicadas por notáveis mestres. Contei, ainda, com o apoio da arquiteta Rosely Hachmann.
Minha linha de pensamento sobre o inestimável valor do patrimônio, quer material ou imaterial, me conduziu ao estudioso Orser Júnior, que publicou um texto em 1992, onde afirmava: “Quem conhece o solo e o subsolo, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva são ricos de ideias ou de sentimentos, quanto nós também o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as coisas compõem um dos mais interessantes fenômenos da terra”.
Sempre concordei com a concepção de Albano Volkmer, que dizia que conhecer o patrimônio, divulgá-lo, comunicá-lo e, em especial no caso que propus, esclarecer sobre a arquitetura e os profissionais que atuaram nas duas unidades escolhidas, pode contribuir para o desenvolvimento cultural e estimular o estudo da história do município e da região.
No caso do “Castelinho”, lembramos, resumidamente, que foi criada a Comissão de Terras em 1909, na cidade que, na época, se chamava Erechim e que hoje se chama Getúlio Vargas. O primeiro a chefiar o órgão apoiador dos imigrantes foi Severiano de Almeida. Em Erechim, o prédio que hoje é o Castelinho foi iniciado entre 1914-1915 e concluído em 1918. Segundo informação da arquiteta Rosely Hachmann, não foi utilizado nenhum prego, tudo era fixado por meio de encaixes e pinos da própria madeira, garantindo grande qualidade e segurança estrutural a todo o edifício. Igualmente foi Rosely Hachmann quem forneceu a descrição conceitual referente à obra original do Castelinho.
O prédio é considerado, em minha opinião, um dos corações da imigração. Todas as emoções boas e, nem tão boas, foram ali experimentadas. Merece o respeito e a gratidão de toda a região do Norte do Alto Uruguai Gaúcho. A Casa Primeira Escola, construída a machado e com telhas de zinco (ou semelhante), por ordem do professor Mantovani, era uma unidade de extrema importância para a história e a memória da região. Foi o berço da educação regional, onde Carlos Mantovani inculcava nos alunos sua ética, valores morais e religiosos, mesmo tendo que usar, por vezes, a palmatória.
A velha e digna casa proporcionava excelência histórica e turística para a Avenida Presidente Vargas. O descaso, a falta de cultura, o desamor e a desconsideração para com o passado a deixaram ruir! Ela existe, agora, só em fotos!
Meu livro detalha a vida de Carlos Mantovani e a construção da casa, que foi analisada e descrita pela arquiteta Maríndia Girardello (in memoriam).
A casa, comprada entre 1914-1915, segundo entrevista fornecida por Modesto Rigoni, foi meu lar por muitos anos. Nela conservei muitos objetos deixados no sótão e esquecidos pelo tempo, que foram guardados zelosamente, em caixas de madeira, por meu pai, e estão elencados no livro.
A simplicidade da casa, que amei e ajudei meu pai na sua conservação, me envolvia com uma intensa relação histórica e afetiva, com minha família que ali viveu, e com todas as pessoas que albergou no passado. Suas formas, suas linhas e superfícies rústicas narravam fatos e acontecimentos, expressavam sentimentos, valores de uma época, a trajetória de tantas pessoas, seu percurso civilizatório, sua memória.
Havia um diálogo harmonioso entre a arquitetura de madeira da “Casa Primeira Escola” e o “Castelinho” e o construir constante da bela Erechim.
A casa desabou, mas o “Castelinho” retomará o diálogo!