O mês de agosto traz duas cores e muitos significados, principalmente às mulheres. De um lado, o dourado, que simboliza o incentivo à amamentação e, do outro, o lilás, que clama por atenção à violência contra a mulher. E, exatamente hoje, dia 26, é também o Dia Internacional da Igualdade Feminina, lembrando a luta histórica das mulheres por direitos básicos, luta esta que, lamentavelmente, ainda precisa ser travada todos os dias.
Já estamos em 2025 e pergunto: a quem interessa que o cuidado não seja reconhecido como trabalho? A quem interessa que mulheres sigam sobrecarregadas, silenciadas, exaustas e ignorando seus próprios direitos?
A naturalização do cuidado como um dever feminino revela uma cultura que insiste em responsabilizar exclusivamente as mulheres pela criação dos filhos e pela manutenção da casa. Mas essa opção é invisibilizada e desvalorizada, enquanto que, quando um homem assume essa função, é exaltado.
Se é verdade que dizem que a mulher nasce para ser mãe, então também deveria ser verdade que o homem nasce para ser pai. Por que a maternidade é considerada um destino natural, enquanto a paternidade é vista como opcional ou secundária? Se um nasce para o papel, o outro também deveria nascer. Ou será que essa ideia só serve para colocar todo o peso da criação nas costas da mulher?
O cuidado é um trabalho físico, emocional, mental e contínuo. E como todo trabalho, deve ser reconhecido, dividido e valorizado. Um passo importante foi dado com o reconhecimento da amamentação como trabalho pelo Superior Tribunal de Justiça, ainda que em caráter penal, já abre precedente para debates mais amplos em outras áreas do direito e sobre a corresponsabilidade. Cuidar de uma criança não pode seguir sendo um peso solitário. Pais precisam ser chamados, legal e moralmente, à responsabilidade.
Não há mais como ficar em silêncio diante da violência contra a mulher. O Agosto Lilás nos lembra que apesar de a Lei Maria da Penha ter completado 19 anos, apenas 2 em cada 10 mulheres conhecem essa lei. Mas, mesmo entre essas, até onde vai esse conhecimento? E a quem interessa que siga assim? Em conversa recente com a advogada Joana Mattia, coordenadora de Políticas Públicas para Mulheres em Erechim, ela pontuou que “o medo, a dependência econômica, o isolamento social e a vergonha se somam à falta de informação, dificultando o rompimento do ciclo de violência”. E, infelizmente ela está certa.
A violência não começa com um tapa. Começa na sobrecarga, na ausência de apoio, na invalidação emocional, na omissão paterna e se intensifica com o tempo, muitas vezes sem deixar marcas visíveis, mas feridas profundas.
É preciso mais do que campanhas, pois o lilás não pode ser apenas cor de fundo para postagens em redes sociais enquanto mulheres seguem sendo violentadas por quem deveria protegê-las. O dourado não pode romantizar a maternidade enquanto mães seguem exaustas e solitárias. É preciso estrutura, políticas públicas efetivas, educação para igualdade e uma mudança profunda na cultura machista que ainda define o cotidiano de tantas famílias.
Cuidado é trabalho, violência é crime e ignorar esses fatos não pode mais ser uma escolha. Agosto é apenas um símbolo, mas o compromisso com a justiça de gênero precisa ser diário, concreto e coletivo. Afinal, como lembrou Joana, “a justiça de gênero não pode ser apenas uma promessa, precisa ser uma prática cotidiana”.
Se você está sofrendo violência ou conhece uma mulher que esteja, entre em contato com Centro de Referência em Atendimento à Mulher (CRAM) pelo WhatsApp: (54) 99139-1480, com o CREAS, a Delegacia da Mulher ou pelo número 180.