Os maiores produtores mundiais de biocombustíveis entram em rota de colisão devido ao recente tarifaço do Governo dos EUA, que oficializou a tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros, no caso do etanol e do açúcar.
Os EUA são os maiores produtores de etanol no mundo, com cerca de 58 bilhões de litros/ano. O Brasil vem em seguida, com cerca de 37 bilhões de litros em 2024. Diferente do Brasil, onde a cana é predominante, o etanol estadunidense é baseado no milho. E essa diferença dá vantagem ao produto brasileiro no comércio internacional. Por ter uma pegada de carbono menor, o etanol de cana tem ganhado mercados, inclusive nos EUA, para cumprir mandatos de descarbonização.
Embora tenhamos centenas de indústrias de etanol de cana, de milho e, brevemente, de trigo, os dados da Consultoria Datagro mostram que as importações brasileiras de etanol dos EUA caíram para 247 milhões de litros por ano desde 2021, enquanto as exportações brasileiras para os EUA ficaram em 309 milhões. De fevereiro de 2023 a junho de 2025, o Brasil importou 204,14 milhões de litros do biocombustível norte-americano, por um valor total de US$ 97,82 milhões. (Trecho original publicado em Exame.com).
O descontentamento do presidente Trump é de que as tarifas comerciais estavam desproporcionais e privilegiavam certos países, como Índia e México, não incluindo os EUA, com tratamento tarifário preferencial mais baixo. Esses dados constam em um documento chamado USTR, do governo americano, onde o “Brasil concede tratamento tarifário preferencial mais baixo apenas a certos grandes parceiros comerciais em setores específicos, incluindo setores nos quais esses parceiros são globalmente competitivos. Esse tratamento preferencial se aplica a centenas de produtos em vários setores, como produtos agrícolas, veículos automotores e peças, minerais, produtos químicos e máquinas”.
Além disso, atualmente o Brasil cobra 18% de tarifa sobre o etanol importado, enquanto os EUA aplicam 2,5% sobre o etanol brasileiro. A cota tarifária (CTQ) sobre a importação do etanol de fora do Mercosul começou a ser aplicada em 2017, com uma alíquota de 20%, e foi uma medida para equilibrar a concorrência com o mercado interno, especialmente no Nordeste, onde a produção é menos competitiva.
Essa seria a razão de, no dia 30/07, a Casa Branca ter publicado a “ordem executiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, oficializando a tarifa de 50% sobre determinados produtos brasileiros. Petróleo e derivados, minério de ferro, celulose e aeronaves — altamente relevantes na pauta do comércio Brasil-EUA — ficarão isentos. Mas o “etanol e o açúcar foram taxados, e podem ser objeto de negociações entre os dois governos”. O acesso ao mercado brasileiro de etanol está entre os principais alvos da investigação aberta pelos Estados Unidos em 15 de julho. No caso do etanol, a investigação vai analisar se atos, políticas e práticas adotadas pelo governo brasileiro são consideradas arbitrárias, discriminatórias e se oneram ou criam barreiras ao comércio estadunidense, incluindo possíveis restrições à entrada do biocombustível dos EUA no Brasil. Na visão do USTR, o Brasil “desistiu de oferecer tratamento praticamente livre de tarifas para as exportações americanas de etanol em caráter recíproco” e, em vez disso, agora aplica uma tarifa substancialmente mais alta ao produto importado”.
Antecipadamente, no dia 29/07, a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, reconheceu em entrevista à GloboNews que etanol e terras raras estão entre as questões a serem resolvidas nas negociações em torno da tarifa de 50%.
O Brasil tem construído parcerias para alavancar ainda mais o biocombustível como uma solução de transição energética. Desde 2023, o governo tem aprofundado suas relações com a Índia, entre outros países da Ásia, em busca de novos consumidores para o etanol brasileiro.
A guerra comercial coincide com uma guerra política, e nas guerras convencionais há um ganhador, mas dois perdedores. No nosso caso, em breve veremos as graves e perturbadoras consequências!