Saudade é um substantivo feminino, que segundo o dicionário, é um “sentimento nostálgico e melancólico associado à recordação de pessoa ou coisa ausente”. Mas parece que nem mesmo essa definição dá conta de tudo. Descobri há pouco.
Sete letras carregam muitos silêncios, lembranças e ausências. Na infância, ela surgia quando eu tentava dormir fora de casa e sentia falta do colo da minha mãe. Na adolescência, os primeiros amores e as primeiras perdas despertavam essa mesma sensação, mas logo viravam apenas lembranças. Sempre pareciam a pior dor do mundo até chegar a próxima fase. Como disse o saudoso Luís Fernando Veríssimo: “Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.” E a vida veio. No auge da minha maior alegria, me lançou ao fundo do poço, me apresentado a pior das dores e me fazendo conviver com a maior de todas as saudades.
Essa saudade é diferente, ela não tem nome e nem definição. A saudade de um filho que partiu é a ausência de um tempo que não existiu, de um futuro que nunca chegará, de um vazio que não se preenche. É como parar no tempo, sabendo que ele continua passando.
Às vezes, ela chega sem aviso. No silêncio, ouvindo uma música, em uma manhã cinzenta ou em um dia de sol. Nem precisa de um gatilho, ela vem toda vez, quando ao olhar no espelho, percebo que falta um pedaço meu. Em alguns dias ela é mais leve, me fazendo lembrar de uma das músicas do Cazuza: “hoje eu acordei com medo, mas não chorei, nem reclamei abrigo. Senti um abraço forte, já não era medo, era uma coisa sua que ficou em mim”. Em outros, ela pesa a mão e dói. A dor ultrapassa o intocável e parece concreta, palpável, ela se torna física, escapa pelos olhos como tentativa frustrada de alívio. Esses dias são mais difíceis, mas até neles, o amor é muito maior.
Tive o privilégio de sonhar poucas vezes com meu pequeno. Recentemente, perto do dia em que completaria três anos e oito meses de sua partida, sonhei novamente. No sonho, seu rosto sereno era o mesmo daquele único dia em que o embalei nos braços. Tenho medo de esquecer seus traços, seu cheiro e, entre tantos pedidos, sempre clamo a Deus que nunca leve embora essa lembrança. Talvez esse medo aperte a saudade.
Há quem diga que "saudade" só existe na língua portuguesa e não por ser uma verdade absoluta, enxergo mais como uma espécie de romantismo, pois talvez só essa palavra traga um sentido mais amplo, explicando tanto sentimento. Porém, não creio que exista palavra em qualquer língua que consiga traduzir o que é sentir saudade de um filho que se foi antes mesmo de viver.
Ainda assim, carrego essa saudade com amor, não com peso. Ela não é lamento, nem prisão. Mora em mim, mas não me paralisa mais. E quando ela vem mais forte, rezo mais forte também, por mim e por ele, para que siga seu caminho de evolução em paz, com luz e alegria, porque o amor que ele deixou aqui transborda, cura, me ensina e me sustenta. Ele vive onde há amor e fé, a fé que ele restaurou em mim mesmo e dessa forma, posso vê-lo além da matéria e senti-lo em cada batida do meu coração.
Meu filho, minha saudade e minha paz diária. Onde quer que esteja, que esteja bem. Eu estou. Te amo desde sempre, para sempre, ao infinito e além!