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Opinião

Dias longos, anos curtos

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Clovis Lumertz
Por Clóvis Lumertz – Empresário
Foto Clóvis Lumertz

Estávamos na fila do supermercado, empurrando lentamente os carrinhos.

A fila parecia interminável: crianças inquietas, gente impaciente, olhares perdidos no relógio, como se olhar os ponteiros acelerasse o tempo.

Eu já respirava fundo, irritado, quando ouvi a voz calma de um senhor atrás de mim:

— Sabe, meu rapaz, os dias são longos, mas os anos são curtos.

Olhei para ele, surpreso com a frase lançada no ar sem aviso.

Ele sorriu de canto, com os olhos acinzentados de uma vida inteira.

Não perguntei a idade, mas seu rosto já a entregava em rugas serenas.

— Essa demora aqui, que para você parece castigo, para mim é um presente — continuou.

— Quando a fila não anda, sinto como se o tempo também não passasse. É como se, por alguns minutos, a vida me desse o direito de acreditar que ainda demora.

— Mas o senhor não fica nem um pouquinho impaciente? — perguntei, meio sem jeito.

Ele riu baixinho.

— Impaciente eu fico quando o tempo corre depressa demais. Veja só: os dias se arrastam, mas, quando olho para trás, os anos... os anos voaram.
O meu menino já é avô, e, para mim, ele ainda corre pela casa descalço.
Os amigos de infância já se foram, e parece que foi ontem que dividíamos o pão da merenda.

Fiquei em silêncio, amarrando as pontas do paradoxo, tentando compreender aquela filosofia de fila de supermercado.

— Por isso, meu rapaz — concluiu o velho, ajeitando as mercadorias no carrinho —, eu escolho sempre a fila mais longa, mesmo tendo direito à dos idosos. Porque aqui, parado, sinto que o tempo se alonga um pouquinho.
E, nesse esticar da espera, eu engano a pressa da vida.

A fila andou.

Ele sorriu. Eu também.

E, por um instante, a demora não pareceu tão ruim assim.

No carro, depois de embarcar as compras no porta-malas, não contive o frio na barriga.

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