Estávamos na fila do supermercado, empurrando lentamente os carrinhos.
A fila parecia interminável: crianças inquietas, gente impaciente, olhares perdidos no relógio, como se olhar os ponteiros acelerasse o tempo.
Eu já respirava fundo, irritado, quando ouvi a voz calma de um senhor atrás de mim:
— Sabe, meu rapaz, os dias são longos, mas os anos são curtos.
Olhei para ele, surpreso com a frase lançada no ar sem aviso.
Ele sorriu de canto, com os olhos acinzentados de uma vida inteira.
Não perguntei a idade, mas seu rosto já a entregava em rugas serenas.
— Essa demora aqui, que para você parece castigo, para mim é um presente — continuou.
— Quando a fila não anda, sinto como se o tempo também não passasse. É como se, por alguns minutos, a vida me desse o direito de acreditar que ainda demora.
— Mas o senhor não fica nem um pouquinho impaciente? — perguntei, meio sem jeito.
Ele riu baixinho.
— Impaciente eu fico quando o tempo corre depressa demais. Veja só: os dias se arrastam, mas, quando olho para trás, os anos... os anos voaram.
O meu menino já é avô, e, para mim, ele ainda corre pela casa descalço.
Os amigos de infância já se foram, e parece que foi ontem que dividíamos o pão da merenda.
Fiquei em silêncio, amarrando as pontas do paradoxo, tentando compreender aquela filosofia de fila de supermercado.
— Por isso, meu rapaz — concluiu o velho, ajeitando as mercadorias no carrinho —, eu escolho sempre a fila mais longa, mesmo tendo direito à dos idosos. Porque aqui, parado, sinto que o tempo se alonga um pouquinho.
E, nesse esticar da espera, eu engano a pressa da vida.
A fila andou.
Ele sorriu. Eu também.
E, por um instante, a demora não pareceu tão ruim assim.
No carro, depois de embarcar as compras no porta-malas, não contive o frio na barriga.