Imagine um elevador grande, espaçoso, com ar suficiente para todos respirarem, mesmo que ele pare por um tempo. Um elevador que é um recorte da vida em movimento com crianças cheias de vida, com adolescentes rebeldes, com jovens começando a vida, com adultos cheios de boletos, com idosos se preparando para a finitude da vida. Estudantes, profissionais, religiosos ou não, pessoas que andam conforme a lei e outras não.
Num desses andares dentro desse elevador, ainda jovem, com resquícios de uma adolescência rebelde me deparei com alguém que sabia ter cometido um crime. Sabe esses tantos que vemos na TV todos os dias? Mas tem alguns que nos chocam mais, alguns por tamanha violência, outros por ser contra crianças e outros por simplesmente nos tocarem na alma sem um motivo aparente.
Talvez dentro desse mesmo elevador houvessem outros criminosos e, até piores e, sem que eu soubesse. Mas daquele eu sabia e lembro de ter ficado em choque. Eu sabia que ali na minha frente, tinha alguém que havia cruzado um limite que não se descruza. Tem coisas difíceis de digerir ou aceitar, porém mesmo assim, de alguma forma aquilo ainda me parecia distante, inalcançável.
A vida não para e o elevador também não. Cresci, amadureci, mudei, virei pai e tudo mudou. Todos os medos que eu nem sabia ser possível sentir, passei a sentir. Toda coragem que eu nunca tive na vida, me foi apresentada assim, no susto, na mesma velocidade entre sair do útero e o primeiro choro. A paternidade é um mergulho em um mundo novo. Ela também nos coloca frente a frente com fantasmas antigos, só que com outro olhar. Foi então que meu elevador parou por alguns segundos.
O que antes parecia inalcançável se tornou quase palpável. Por alguns segundos, me faltou ar e até a cor. A diferença é que agora não sou um jovem sozinho no mundo, sou um pai, sou responsável por uma vida inocente que confia em mim para protegê-la e ensiná-la e essa responsabilidade muda tudo, pois a lente com que vemos o mundo se transforma. O que antes era apenas “absurdo” vira uma “ameaça direta”. E o julgamento, antes moral, ganha contornos práticos: e se fosse com meu filho?
Mas também, com os olhos de adulto, consegui ver algo mais. Algo que vai além de justificativas ou desculpas, porque não creio que existam, mas um contexto. Muitas vezes olhamos para as pessoas como se elas passassem a existir a partir dali, sem uma história de vida e sem pessoas a sua volta. Muitas delas vem de um ciclo de violência que se repete de forma cruel e continua refletindo em muitas vidas, principalmente de inocentes. É duro, mas para mim esse contexto todo não isenta ninguém das responsabilidades. Ser vítima de uma violência não justifica fazer novas vítimas. Porém hoje, tenho mais noção de como o mundo forma e deforma as pessoas.
A paternidade me ensinou que não dá pra viver de respostas rápidas e julgamentos automáticos. Criar um filho não é só protegê-lo do mundo, mas também prepará-lo para ele e dessa forma, estaremos preparando um mundo melhor. Ensinar empatia sem ingenuidade, justiça sem vingança e segurança sem paranoia. Ser pai é transitar constantemente entre o medo e o amor, entre a vontade de blindar e a necessidade de soltar e entre confiar na humanidade e de se preocupar com ela.
Não sei bem explicar o que senti. Senti muito medo, uma vontade de colocar meu filho dentro de uma bolha, mesmo sabendo que não é o melhor lugar. Não sei dizer se senti raiva, acho até que não, por incrível que pareça. Senti medo e uma necessidade ainda maior de proteger minha cria, mas ao mesmo tempo uma impotência por saber que jamais conseguirei protege-lo completamente. Senti um inevitável aperto no peito, mas acima de tudo, senti o peso e o privilégio da responsabilidade de ser exemplo, de ser escudo, de ser presença e de ser amor, de ser muito amor.
O elevador da vida não para. Às vezes balança, às vezes assusta, mas se a gente estiver atento, sempre tem algo a aprender e a mudar em cada andar, principalmente quando o nosso destino é a paternidade.