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Opinião

Inspirado

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Clovis Lumertz
Por Clóvis Lumertz – Empresário
Foto Clóvis Lumertz

Tem dias que acordo inspirado, nem eu me aguento.

Cheguei na sala do Conselho e comecei o quebra-gelo:

— Gente, deixa eu contar uma coisa. Uma vez eu estive nos bastidores da Fórmula 1. Uma loucura! O mecânico lá, cheio de graxa na mão, trocando peça em segundos, aquele caos organizado. E eu fiquei pensando: sem o mecânico, o carro nem larga. Mas, se todo mundo ficar só com a cabeça enfiada no motor, quem é que olha a pista? Quem decide a hora de parar no box, a estratégia da ultrapassagem ou até a chuva que pode cair? O carro funciona, mas sem vitória na pista.

Todo mundo me olhando com cara de paisagem. Parece que não entenderam a metáfora. Mudo o tom, como quem troca de lembrança pessoal.

— E lá em casa é parecido. No jardim eu arranco matinho, rego, corto um galho seco aqui, outro ali. O jardim até fica mais limpo. Mas, se eu não parar pra pensar onde eu quero sombra, onde eu quero flores, onde eu quero grama, sabe o que acontece? Vira um matagal domesticado.

Um colega do board faz cara de “meio desastre”, com aquela boca torta e sorriso só para a esquerda.

— Nada contra o mato, mas não dá pra chamar isso de jardim.

Ainda sem reação. Agora junto tudo, olhando para a diretoria, tom mais reflexivo.

— E aí entra a terceira história: o barco. Porque, no fundo, nós somos meio mecânicos, meio jardineiros, mas também somos remadores olhando pro farol.
Se a gente só rema, sem farol, cansa e roda em círculos.
Se a gente só olha o farol sem remar, fica parado.
E, se a gente só cuida do motor ou arranca matinho, bom, a empresa até funciona, mas não cresce.

Agora tento uma conclusão, tom leve, quase de stand-up.

— Moral da história? Mecânico demais, a gente cheira graxa. Jardineiro demais, a gente cheira adubo. Remador sem farol, a gente se perde.
Mas, quando junta tudo, aí sim a empresa começa a correr como carro de Fórmula 1, florescer como jardim de revista e navegar como barco de filme do 007.

Faço uma breve pausa final, sorriso e ar de provocação.

— E aí, senhores, hoje vamos falar de estratégia?

E a turma sem entender nada.

Daí o CEO me pergunta:
— Sabes se a gente devia mudar a cor do crachá?

Fico besta.

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