A vida de Celita Casagrande se confunde com a própria história da educação em Erechim. Casada ainda jovem e mãe cedo, precisou conciliar o desejo de estudar com os cuidados dos filhos. Reunia amigas na mesma situação, embalava as crianças e, quando a casa se aquietava, viravam noites entre livros e cadernos. Foi assim, na persistência das madrugadas, que lançou as bases de uma carreira marcada por coragem e determinação.
A primeira experiência como professora ocorreu em Itatiba do Sul, na Escola Amazonas. O percurso era feito em estradas de chão e, muitas vezes, ela dormia na casa de moradores da comunidade para conseguir lecionar. Cada obstáculo servia de combustível para seguir adiante, até ser aprovada em concursos e conquistar o sonho de ensinar em Erechim.
A sala de aula como missão
Ao longo de duas décadas no Colégio Estadual Agrícola Ângelo Emílio Grando e outros tantos anos no Colégio Estadual Haidée Tedesco Reali, Celita lecionou Português, Literatura Brasileira, Ensino Religioso e Inglês. Sempre acreditou que ensinar era mais do que transmitir conteúdo — era motivar, formar cidadãos conscientes e comprometidos.
Suas estratégias para engajar os alunos eram simples, mas eficazes. No primeiro dia de aula, pedia uma redação intitulada “Quem sou eu?”, que lhe permitia conhecer não apenas as dificuldades de escrita, mas também o universo de cada estudante. Passava madrugadas corrigindo centenas de textos, anotando erros, explicando caminhos, devolvendo respostas personalizadas. “Ser professora de Português sempre exigiu muito. Mas cada esforço valia a pena quando percebia o avanço dos alunos”, recorda.
Liderança e defesa da profissão
Celita também assumiu responsabilidades fora da sala de aula. Foi eleita diretora-geral do Centro dos Professores do Estado (CPERS), representando Erechim e toda a região. Nesse papel, percorreu escolas, ouviu colegas e defendeu melhores condições de trabalho, sempre insistindo na necessidade de valorização docente.
A comparação entre ontem e hoje surge em sua fala com a força de quem viveu as duas realidades. “Os alunos de antes iam à escola porque queriam aprender. O professor era uma figura respeitada. Hoje, falta esse respeito, e sem ele não há educação de qualidade”, reflete.
Alegrias que permanecem
Entre as lembranças mais marcantes, estão os reencontros inesperados com ex-alunos. Um deles aconteceu em Porto Alegre, quando dois jovens a reconheceram em uma rodoviária. Tinham sido seus estudantes no Colégio Agrícola e estavam de volta da Itália, onde haviam construído carreira. “Eles vieram me agradecer pela formação que receberam. Foi emocionante. Esses momentos são meu maior presente”, conta, com os olhos marejados.
Inquietação além da escola
Mesmo após a aposentadoria, manteve a mesma disposição em servir à comunidade. Liderou a criação do Residencial Geriátrico Erechim, espaço pioneiro que acolhia idosos durante o dia, oferecendo refeições, atividades culturais e convivência. O projeto buscava preservar os vínculos familiares, já que os idosos retornavam para casa à noite. Apesar das dificuldades financeiras e do encerramento com a pandemia, a iniciativa permanece como testemunho de sua sensibilidade social.
Reflexões sobre a educação
Celita não esconde a preocupação com o futuro da profissão. Para ela, a falta de valorização salarial e social coloca em risco a continuidade do magistério. “Um professor mal remunerado, desvalorizado pelo governo, dificilmente terá o reconhecimento que merece da sociedade. Sem educação de qualidade não há futuro”, afirma.
Sua visão vai além da sala de aula, alcançando a cidadania. “Um povo bem instruído não vende seu voto e sabe escolher seus representantes. Educação é a base para um país mais justo”, enfatiza.
O legado
Entre memórias, lutas e conquistas, Celita resume sua trajetória em uma certeza: a de que faria tudo outra vez. “Se eu pudesse nascer de novo, escolheria ser professora novamente”, afirma.
Sua mensagem, direcionada aos estudantes e colegas de profissão, ecoa como um chamado à reflexão:
“A educação move o mundo. É ela que dá a sabedoria necessária para alcançar objetivos. Aos alunos de hoje, digo: estudem e valorizem seus professores. Eles são o caminho para um futuro melhor para todos.”