Falar sobre a estrutura política e econômica é problema na certa, tudo aqui é contencioso, vira polêmica, do começo ao fim, contudo, este imbróglio é o melhor sinal que há muito que se desvelar aí. A crítica na sociedade brasileira sempre foi dirigida para a maioria da população e, em última análise, como se ela fosse sempre a fonte de todos os males do país. Isso não é verdade, mas se fez acreditar que sim utilizando muitos expedientes, força, violência, ciência e a cultura. Esta percepção está presente na mente e nos corações de muitas pessoas. Só uma observação aos incautos, antes de mais nada, que fique aqui registrado, esta é a minha opinião.
Esse capital cultural destrutivo está entranhado na sociedade brasileira que reproduz isso na forma de racismo, discriminação, segregação e muita violência de todos os tipos contra si próprio. Isso esconde uma lógica perversa para fazer o brasileiro acreditar que ele não merece nada de bom. Essa estrutura cultural continua sendo reeditada, ano após ano, e chega a todos nós de muitas formas via educação formal, meios de comunicação, convívio social, família, amigos, e, nos últimos anos, foi intensificada pelas redes sociais e internet.
Um dos principais efeitos deletérios, nocivos, à sociedade, como um todo, do convívio social ao desenvolvimento socioeconômico do Brasil, é que este capital cultural inibe a reflexão crítica da realidade, esconde, manipula informações em prejuízo de todos os brasileiros, famílias, trabalhadores, empresários, setores da indústria, comércio, serviços, todos perdem indistintamente.
E um exemplo disso, nesta lógica, é ouvir críticas sistemáticas ao Bolsa Família, que está sempre na ponta da língua para todo tipo de análises e piadinhas, mesmo sendo um programa legítimo num país com muita pobreza, de um povo muito trabalhador. E o Bolsa Banqueiro? Como assim? Sim, o Brasil tem o Bolsa Banqueiro que faz um estrago bilionário todos os dias nas contas públicas, junto com os juros absurdos e escorchantes da economia brasileira e não é objeto de comentários. Ninguém sequer fala disso. Porque é justo, merecido, tem explicação científica? Óbvio que não. Isso só mostra como o Brasil realmente é, Estado mínimo para muitos e Estado máximo para poucos.
O termo Bolsa Banqueiro foi cunhado pela Auditoria Cidadã da Dívida (ACD), para mostrar um dos absurdos da política econômica às avessas do país. Em vez dos bancos emprestarem o dinheiro da sociedade para o conjunto da própria sociedade, a juros baixos, e dinamizar a economia brasileira, eles preferem cobrar juros exorbitantes sobre os empréstimos que disponibilizam ao público em geral, e usam essa sobra de caixa para depositar no Banco Central e receber uma generosa remuneração diária sobre esse dinheiro que sequer pertence a eles. Isso é o Bolsa Banqueiro que segundo a ACD já gastou R$ 2,8 trilhões gerando somente dívida pública.
Segundo a ACD, “o volume dessas operações no Brasil extrapola de forma escandalosa qualquer comparativo internacional, como aponta estudo da Instituição Fiscal Independente mantida pelo Senado: enquanto em demais países o volume dessas operações não chega a 1% do PIB e em alguns casos são realizadas com juro zero, aqui no Brasil chegam a ultrapassar 25% do PIB e são remuneradas com base na Selic, que já atinge o escandaloso patamar de 15% ao ano, ou até mais. Ademais, o volume de moeda em circulação no Brasil é baixíssimo e não se justifica a esterilização de trilhões pelo Banco Central”.
Esse é somente um exemplo da inversão de valores que vive a sociedade brasileira e de uma estrutura com lógica cruel que empobrece as famílias, encarece o crédito para empresas e investimentos e acelera a desindustrialização. A taxa Selic é ineficiente para conter a inflação e o pior só agrava a situação, eleva os custos do sistema produtivo, dos consumidores, reprime a atividade econômica sem atacar as causas reais da inflação, como bem explica a ACD há anos.
Nem os juros absurdos do Brasil e nem o Bolsa Banqueiro, que destroem a economia, geram somente dívida pública, esfacelam toda estrutura produtiva, comercial e as famílias brasileiras, suprimindo investimentos essenciais em saúde, educação, infraestrutura, são objetos de discussão pública e tampouco assunto dos congressistas. Este modelo dos juros altos e do Bolsa Banqueiro corrompe o país de todas as formas possíveis e imagináveis, destrói vidas diariamente e sequer há piadinhas sobre ele. Todo valor que o sistema capitalista dá pra o dinheiro, no Brasil, para os senhores das finanças parece nem existir, não representa nada, mesmo esta estrutura consumindo 42% do PIB em 2024, quase R$ 2 trilhões. Esta estrutura monstruosa arruína o país e tudo bem. Enfim, parece que a cabeça está feita e não há nada com que se preocupar.